ASLMS 2026: o que aprendi ao apresentar minha pesquisa diante dos pioneiros da medicina mundial
Voltei de Savannah, na Geórgia (Estados Unidos), onde aconteceu o congresso anual da American Society for Laser Medicine and Surgery, a ASLMS — uma das sociedades científicas mais respeitadas do mundo quando o assunto é tecnologia aplicada à medicina. Fui até lá não apenas para assistir, mas para apresentar uma pesquisa que conduzi no Brasil. E voltei com algo que considero mais valioso do que qualquer novidade tecnológica: um jeito mais maduro de pensar a cirurgia plástica.
Quero dividir com você o que realmente fica de uma experiência dessas — porque, ao contrário do que parece, não volto de um congresso internacional querendo lançar a próxima moda. Volto fazendo mais perguntas.
Apresentar diante de quem construiu essa ciência
Apresentar uma pesquisa autoral diante de nomes que admiro profundamente foi, para mim, emocionante de um jeito difícil de descrever. Entre eles estava o Dr. R. Rox Anderson — um dos maiores pioneiros da medicina a laser no mundo, responsável por conceitos que literalmente fundamentaram tudo o que fazemos hoje nessa área. Colocar um trabalho seu para ser discutido por quem ajudou a criar as bases da própria ciência é, ao mesmo tempo, uma honra e uma enorme responsabilidade. Foi nesse momento que entendi, de forma concreta, por que vale a pena pesquisar: não pelo palco, mas pela oportunidade de submeter as próprias ideias ao crivo dos melhores e voltar para casa com elas mais refinadas.
O que mais me chamou atenção na ASLMS 2026
Ao longo de vários dias, uma mensagem se repetiu nas apresentações, independentemente da especialidade de cada palestrante: a medicina caminha, cada vez mais, para tratamentos individualizados. Durante muitos anos, a corrida foi por encontrar a melhor tecnologia. Hoje a conversa é outra. A pergunta deixou de ser qual aparelho usar e passou a ser qual combinação de técnicas oferece o melhor resultado para aquele paciente específico.
Essa virada de pensamento me tocou porque é exatamente assim que conduzo minha prática. Na cirurgia plástica facial raramente existe uma resposta única para todos. Algumas pessoas se beneficiam principalmente da cirurgia; outras respondem muito bem a tecnologias médicas; e, em muitos casos, o melhor resultado nasce da integração entre diferentes abordagens, sempre respeitando a anatomia, o processo de envelhecimento e os objetivos de cada paciente. Menos protocolos padronizados, mais medicina personalizada.
Apresentar uma pesquisa é diferente de apenas participar
Uma das perguntas que mais recebo quando volto desses eventos é se eles realmente fazem diferença na prática. Fazem — principalmente quando existe a oportunidade de apresentar pesquisa. Assistir a uma aula é importante. Mas submeter um estudo à avaliação científica, ser selecionada para apresentá-lo e discutir os resultados com especialistas de diferentes países é uma experiência completamente diferente. Nesse momento você deixa de apenas receber informação e passa a contribuir com a construção do conhecimento.
O estudo que levei à ASLMS nasceu de uma dúvida concreta do consultório, sobre a cirurgia das pálpebras: como tornar a recuperação mais confortável e previsível, sem abrir mão da segurança? Para responder, conduzi uma pesquisa prospectiva e controlada com 60 pacientes, comparando, de forma objetiva, diferentes técnicas cirúrgicas. Os resultados foram consistentes — menos sangramento no intraoperatório, menos dor nas primeiras 24 horas e retorno mais rápido às atividades, sem aumento de complicações. Mas o que quero destacar não é um número isolado: é o fato de que cada pergunta da plateia e cada troca com colegas de outros países me ajudaram a enxergar meus próprios resultados com mais rigor. É assim que a medicina evolui.
O que isso muda para quem é meu paciente
Talvez esta seja a parte mais importante deste texto. Participar de congressos internacionais não significa voltar oferecendo novidades só porque acabaram de ser apresentadas. Acontece o contrário: volto fazendo ainda mais perguntas. Essa tecnologia realmente traz benefício? Quais pacientes se beneficiam? Em quais situações ela não faz diferença? Existe evidência suficiente para incorporá-la? Essa análise crítica é parte da responsabilidade de quem pratica cirurgia plástica baseada em evidências. Para mim, inovação só faz sentido quando melhora a experiência do paciente, aumenta a segurança ou torna o resultado mais previsível. Fora disso, continua sendo apenas novidade.
O compromisso que levo comigo
Costumo dizer que meus pacientes não precisam acompanhar congressos internacionais nem conhecer os detalhes técnicos das pesquisas que apresento. Essa responsabilidade é minha. O que eles merecem é a certeza de que cada decisão — numa consulta ou numa cirurgia — é baseada em estudo, atualização constante e leitura crítica da literatura. Voltei de Savannah com novas ideias, novas perguntas e a convicção de que a cirurgia plástica facial evolui rápido.
Mas voltei também com algo ainda mais importante: a confirmação de que a tecnologia, sozinha, nunca será o fator mais importante de um tratamento. O que faz diferença continua sendo o diagnóstico correto, o planejamento individualizado e a capacidade de integrar ciência, experiência e tecnologia com responsabilidade.
Conclusão
Apresentar uma pesquisa brasileira na ASLMS 2026, diante de alguns dos nomes que moldaram a medicina a laser, foi mais do que levar um estudo a um palco internacional. Foi discutir ciência, trocar com especialistas do mundo todo e confirmar que o futuro da cirurgia plástica facial será cada vez mais baseado na integração entre conhecimento anatômico, tecnologias médicas e medicina baseada em evidências. É esse compromisso com atualização contínua, pesquisa e inovação responsável que orienta a forma como construo, junto a cada paciente, tratamentos individualizados e resultados naturais.
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Dra. Ana Carolina Chociai — Cirurgiã Plástica · CRM-PR 27216 · RQE 18855 · Fellow, Columbia University · Membro da ASLMS
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Referências
Chociai AC. Laser-Assisted Versus Conventional Upper Eyelid Blepharoplasty: Prospective Evaluation of Hemostasis, Thermal Effects, and Early Recovery. Apresentado na Annual Conference of the American Society for Laser Medicine and Surgery (ASLMS), Savannah, GA, EUA, 2026.
American Society for Laser Medicine and Surgery. Annual Conference 2026 — Program and Scientific Sessions. https://www.aslms.org
Anderson RR, Parrish JA. Selective photothermolysis: precise microsurgery by selective absorption of pulsed radiation. Science. 1983;220(4596):524-527. https://doi.org/10.1126/science.6836297
Aghajani A, et al. From incision to healing: an evidence-based review of scar optimization in upper blepharoplasty. Aesthetic Plast Surg. 2025. https://doi.org/10.1007/s00266-025-05414-6