“Doutora, o que eu posso comer depois?” É uma das perguntas que mais chegam, e muitas vezes antes mesmo de a cirurgia ter data marcada. Faz todo o sentido. Depois de qualquer cirurgia da face, o corpo passa semanas reconstruindo tecido, e é do prato que ele tira a matéria-prima para isso. Neste artigo reúno o que a literatura científica diz sobre alimentação e cicatrização, e traduzo para a realidade de quem acabou de operar o rosto: mastigar com a face inchada, evitar o que aumenta o sangramento e entender o que realmente vale a pena entre os suplementos.
Por que a alimentação muda a recuperação
A cicatrização não é um evento único. Ela acontece em fases: o corpo controla o sangramento, organiza a inflamação, constrói tecido novo e, ao longo de meses, remodela a cicatriz. Cada fase gasta energia e nutrientes específicos. Uma revisão narrativa publicada em 2024 no JPRAS Open, por cirurgiões plásticos da Austrália, da Dinamarca e da Itália, reuniu os estudos sobre o impacto da nutrição na cicatrização da pele e nos resultados estéticos. Os autores descrevem a cicatrização como um processo que exige muita energia: a necessidade calórica durante a reparação é estimada em 30 a 35 kcal por quilo de peso por dia, e a proteína é a base da formação do tecido de granulação e do colágeno.¹
A mesma revisão aponta o que acontece quando falta combustível: a deficiência de proteína compromete a proliferação dos fibroblastos, a formação de novos vasos e a síntese de colágeno, e a desnutrição está associada a mais infecções e mais complicações depois da cirurgia.¹ O recado para a paciente é simples: chegar bem nutrida à cirurgia e comer bem na recuperação faz parte do tratamento, e não é detalhe.
O que colocar no prato
Proteína em todas as refeições. Ovos, frango, carne, peixe, iogurte e queijos frescos. Segundo a revisão, aminoácidos como arginina e glutamina participam da inflamação controlada, da síntese de colágeno e da formação de vasos, embora a eficácia de suplementá-los isoladamente ainda seja discutível.¹ Na prática, comida de verdade resolve na maioria dos casos.
Vitamina C. Laranja, acerola, morango, kiwi, goiaba, pimentão. A vitamina C é cofator das enzimas que constroem o colágeno, e uma revisão sistemática citada no artigo sustenta o seu papel na cicatrização.¹
Zinco e cobre. Castanhas, sementes, carnes, grão-de-bico. O zinco participa da reepitelização e da defesa imunológica, e o cobre atua em todas as fases da cicatrização, segundo a revisão.¹
Vitaminas A e do complexo B. Cenoura, abóbora, couve, espinafre, ovos, carnes. A vitamina A estimula o crescimento de células da pele e de fibroblastos; as do complexo B são cofatores da produção de glóbulos brancos e da síntese de colágeno.¹
Gorduras boas e ômega-3 do alimento. Sardinha, salmão, azeite, abacate, castanhas. O ômega-3 modula a inflamação, e os autores da revisão o tratam como uma peça relevante da recuperação, ainda com perguntas em aberto.¹ Repare que falo do alimento. A cápsula de óleo de peixe é outra conversa, e voltarei a ela mais adiante.
Cor e antioxidantes. Frutas vermelhas, beterraba, vegetais variados, açafrão-da-terra e outros compostos polifenólicos mostraram efeito anti-inflamatório na literatura revisada.¹
Água ao longo do dia. A hidratação sustenta a circulação na pele e o transporte de nutrientes até o tecido que está sendo reparado. A revisão sugere, como referência geral, cerca de 1 ml de líquido por caloria consumida por dia, ajustada para quem tem problema cardíaco ou renal.¹ Água, água de coco, chás e caldos entram na conta.
Na face, a textura importa
Aqui entra uma parte que os artigos de nutrição não cobrem e que faz diferença no dia a dia de quem operou o rosto. Nos primeiros dias, a face está inchada e a mastigação forçada ou a boca muito aberta incomodam. Por isso costumo orientar alimentos macios e fáceis de mastigar no início: ovos mexidos, purês, sopas mornas, iogurte, peixe desfiado, frutas amassadas, vitaminas batidas com proteína. Alimentos muito duros, que exigem mastigação intensa, ou muito quentes ficam para depois.
Outro ponto prático: depois da anestesia e com analgésicos, náusea e perda de apetite são comuns, e os analgésicos mais fortes ainda causam constipação. A revisão lembra justamente que medicamentos desse tipo reduzem a ingestão alimentar e agravam o déficit nutricional.¹ Fibras suaves, frutas, líquidos e refeições pequenas e frequentes costumam funcionar melhor do que forçar um prato cheio.
O que fica para depois
Álcool. A Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS) orienta evitá-lo antes e depois da cirurgia porque aumenta o risco de sangramento e de manchas roxas, desidrata e atrapalha o sono.² A revisão de 2024 soma outro argumento: o consumo de álcool está associado a mais infecção de ferida e a pior cicatrização, em parte porque reduz o zinco e o selênio do organismo.¹ Além disso, álcool nunca deve ser combinado com analgésicos.
Cigarro. A nicotina contrai os vasos e reduz a oxigenação da pele, e a revisão afirma que o tabagismo prejudica a cicatrização e o resultado estético.¹ Uma metanálise mostrou que parar de fumar pelo menos quatro semanas antes da cirurgia reduziu a infecção de ferida operatória (razão de chances de 0,37).³ Em cirurgia de face, em que a pele é descolada e depende da circulação para sobreviver, esse é um dos pontos em que a paciente mais pode contribuir.
Açúcar refinado, frituras e ultraprocessados. A hiperglicemia prejudica a função das células da cicatrização e aumenta o risco de infecção, segundo a revisão,¹ e a ASPS recomenda reduzir açúcares refinados e alimentos muito salgados.² O sal em excesso favorece o inchaço, e por isso peço moderação nas primeiras semanas.
E os suplementos? Aqui é onde mais se erra
Suplemento não substitui o prato, e “natural” não é sinônimo de seguro. Esse é o ponto da alimentação em que a minha orientação é mais firme, porque ele envolve sangramento.
Uma revisão publicada no Aesthetic Surgery Journal, escrita para cirurgiões plásticos, identificou 19 ervas, três fórmulas herbais, dois chás e outros suplementos que podem causar sangramento no perioperatório e no pós-operatório, e alertou para os relatos de hematoma associados a eles.⁴ Outra revisão, sobre coagulação, aponta risco de sangramento com alho, ginkgo, ginseng, chá-verde, saw palmetto, erva-de-são-joão e óleo de peixe.⁵ A ASPS cita ainda a vitamina E nessa lista.² Sobre a vitamina E, a revisão de 2024 conclui que não há evidência suficiente para recomendá-la na cicatrização, e descreve resultados variáveis entre os estudos.¹
As sociedades de anestesiologia recomendam suspender produtos herbais de uma a duas semanas antes de cirurgias eletivas, e metade a dois terços dos pacientes cirúrgicos não contam ao médico que os usam.⁶ Por isso, conte tudo na consulta: multivitamínico, cápsula de ômega-3, “termogênico”, chá, pó para treino, tudo.
E arnica e bromelina, que tanto se ouve falar? Uma revisão sistemática de 2026 sobre cirurgia plástica facial reuniu 10 estudos, com 696 pacientes, a maioria operados de rinoplastia e blefaroplastia. Dos estudos com arnica, 63% mostraram redução significativa das manchas roxas, e os efeitos adversos foram raros e leves. Para a bromelina, as evidências são limitadas, e os próprios autores apontam grande variação de dose e de método de avaliação, o que impede conclusões firmes.⁷ Ou seja: há um sinal promissor para arnica, que ainda não foi estudado de forma específica em lifting, e a bromelina segue sem prova robusta. Também não há estudo, que eu conheça, mostrando que comer abacaxi produza o mesmo efeito de uma formulação farmacêutica. Se você quiser usar algum deles, a decisão é da equipe que acompanha a sua cirurgia.
Como isso se encaixa nas primeiras semanas
Os primeiros dias pedem alimentos macios, mornos, refeições pequenas e muita água. Na primeira semana, quando o inchaço e as manchas começam a mudar, a prioridade é manter a proteína em todas as refeições, sem álcool e sem cigarro. Nas semanas seguintes, a textura volta ao normal e o prato passa a sustentar a remodelação da cicatriz, que dura meses.
Quem tem diabetes, quem segue dieta vegetariana ou vegana, quem tem pouco apetite ou problema renal precisa de um plano ajustado, e é por isso que esta conversa acontece na consulta e não em uma lista genérica.
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O que a ciência ainda não responde
Vale ser transparente. Os próprios autores da revisão de 2024 reconhecem que a evidência ainda é generalizada, que faltam estudos de coorte e ensaios clínicos que relacionem cada nutriente ao resultado estético, e que há lacunas, por exemplo, sobre o ferro.¹ Não existe, até onde pude verificar, um estudo específico sobre dieta depois de lifting facial. O que temos é o conhecimento sobre cicatrização em geral, a experiência de cirurgiões e os dados sobre o que aumenta o risco, como álcool, cigarro e suplementos que interferem na coagulação. Por isso a minha orientação combina essa literatura com o que vejo na prática, sem prometer que a comida muda o resultado da cirurgia, mas a falta dela com certeza sim, pois é o combustível para a cicatrização do corpo.
Cada recuperação é única
Cada cirurgia e cada paciente têm a sua orientação, combinada na consulta junto com o restante do preparo e do pós-operatório. Se você quer entender o que esperar depois de um lifting, escrevi sobre a recuperação do lifting facial semana a semana, e sobre como é a consulta antes de qualquer procedimento. Recuperar bem começa antes da cirurgia e inclui o que está no seu prato.
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Referências
Seth I, Lim B, Cevik J, Gracias D, Chua M, Kenney PS, et al. Impact of nutrition on skin wound healing and aesthetic outcomes: a comprehensive narrative review. JPRAS Open. 2024;39:291-302. doi:10.1016/j.jpra.2024.01.006. PMID: 38370002
American Society of Plastic Surgeons. What to eat (and drink) while you heal: nutrition's role in plastic surgery recovery. plasticsurgery.org
Xu B, Anderson DB, Park ES, Chen L, Lee JH. The influence of smoking and alcohol on bone healing: systematic review and meta-analysis of non-pathological fractures. EClinicalMedicine. 2021;42:101179. doi:10.1016/j.eclinm.2021.101179. PMID: 34765953
Wong WW, Gabriel A, Maxwell GP, Gupta SC. Bleeding risks of herbal, homeopathic, and dietary supplements: a hidden nightmare for plastic surgeons? Aesthet Surg J. 2012;32(3):332-346. doi:10.1177/1090820X12438913. PMID: 22395325
Wang CZ, Moss J, Yuan CS. Commonly used dietary supplements on coagulation function during surgery. Medicines (Basel). 2015;2(3):157-185. doi:10.3390/medicines2030157. PMID: 26949700
Elvir Lazo OL, White PF, Lee C, Cruz Eng H, Matin JM, Lin C, et al. Use of herbal medication in the perioperative period: potential adverse drug interactions. J Clin Anesth. 2024;95:111473. doi:10.1016/j.jclinane.2024.111473. PMID: 38613937
Manouchehri K, Datta S, Levin M. Effectiveness of arnica and bromelain for improving ecchymosis following facial plastic surgery: a systematic review. Plast Surg (Oakv). 2026. doi:10.1177/22925503261470270. PMID: 42539591