O que é o SMAS e por que ele é o verdadeiro alicerce do rejuvenescimento facial

Introdução

Sempre que explico um lifting para uma paciente no consultório, percebo o mesmo mal-entendido: a ideia de que envelhecer o rosto é “sobrar pele” e que rejuvenescer é “esticar pele”. Se fosse assim, todo lifting duraria poucos meses e deixaria aquele aspecto repuxado que ninguém quer. A verdade cirúrgica é outra, e ela tem nome: SMAS. Entender essa estrutura é entender por que dois liftings tecnicamente “iguais” podem ter resultados tão diferentes — e por que eu insisto tanto em individualizar cada cirurgia.

O que significa SMAS, afinal

SMAS é a sigla em inglês para Superficial Musculoaponeurotic System — em português, sistema músculo-aponeurótico superficial.

É uma camada contínua de tecido fibromuscular que fica logo abaixo da gordura subcutânea e acima dos músculos profundos e do nervo facial. Pense nela como uma rede elástica e organizada que envolve o rosto, conectando a pele aos músculos da expressão e transmitindo o movimento que nos permite sorrir, franzir e falar. O SMAS foi descrito formalmente por Mitz e Peyronie em 1976, e desde então passou a ser o centro de gravidade conceitual de praticamente toda a cirurgia facial moderna.

Anatomicamente, o SMAS se continua para cima com a fáscia temporoparietal e para baixo com o platisma, aquele músculo largo do pescoço. Ou seja, não é uma estrutura isolada da face: é um envelope contínuo que vai da têmpora ao tórax superior. Essa continuidade explica por que o envelhecimento do rosto e do pescoço caminham juntos, e por que tratar um sem o outro raramente entrega harmonia.

Por que o SMAS é o que envelhece — não só a pele

Aqui está o ponto que mudou minha forma de operar. O rosto não “cai” apenas porque a pele afrouxa. Ele cai porque toda a arquitetura de sustentação profunda — SMAS, compartimentos de gordura e os ligamentos de retenção — perde tensionamento e desce com a gravidade. Os ligamentos de retenção (zigomático, massetérico, mandibular) são como âncoras que prendem a pele e o SMAS ao osso e às fáscias profundas. Segundo a literatura revisada no PubMed, um estudo anatômico rigoroso de 2024 em 50 cabeças de cadáver, com plastinação e testes mecânicos, demonstrou que esses ligamentos não são estruturas isoladas, mas reforços de uma rede de fibras menores (retináculos) que sustentam o tecido contra a flacidez gravitacional ao mesmo tempo em que permitem certa mobilidade [DOI].

Quando esse sistema afrouxa, surgem os sinais clássicos: o sulco nasogeniano se aprofunda, a região da mandíbula perde definição e aparecem as “sobrinhas de buldogue” no contorno da face (jowls), o pescoço perde ângulo. Tudo isso é descida de tecido profundo. É por isso que costumo dizer no consultório: quando trato apenas a pele, estou tratando a consequência; quando trato o SMAS, estou tratando a causa.

O insight que aprendi na prática: pele tracionada não sustenta

Existe um motivo biomecânico para a pele isolada não segurar o resultado, e ele me convenceu definitivamente a trabalhar o plano profundo. A pele é um tecido elástico e vascularização-dependente; se eu uso a pele como elemento de sustentação, coloco todo o peso do tecido sobre a sutura e sobre uma camada que, por natureza, vai relaxar de novo. O resultado é duplo e ruim: dura pouco e tende ao aspecto artificial, esticado, com a cicatriz alargando. O SMAS, ao contrário, é um tecido robusto, com orientação de fibras que se opõe à gravidade. Quando reposiciono o SMAS, a pele simplesmente acompanha — relaxada, sem tensão — e é exatamente isso que produz o resultado natural.

O mesmo estudo anatômico de 2024 traduz isso de forma elegante: técnicas que apenas “esticam” sem liberar (como fios e mini-liftings superficiais) mudam a arquitetura de sustentação e colocam todo o peso na fixação, o que limita a longevidade. Já as técnicas de liberação e reposicionamento real preservam a orientação antigravitacional do tecido profundo, conceitualmente melhorando a duração do resultado [DOI].

As técnicas de SMAS — uma família inteira, não uma cirurgia só

Quando uma paciente me pergunta “você faz SMAS ou deep plane?”, eu explico que a pergunta já parte de uma simplificação. Existe toda uma família de técnicas que trabalham o SMAS, em profundidades crescentes. Conhecê-las é o que permite escolher a certa para cada rosto. Segundo revisão publicada na Facial Plastic Surgery, as técnicas podem ser classificadas pela profundidade e extensão da dissecação [DOI]:

Plicatura do SMAS. Dobra-se o SMAS sobre si mesmo com suturas, sem cortar a camada. É a mais conservadora, útil em casos selecionados de flacidez leve a moderada.

Imbricação e SMASectomia. Aqui se remove ou se transpõe uma faixa do SMAS antes de suturar, gerando um tensionamento mais definido do contorno mandibular e cervical. É uma técnica amplamente estudada, com resultados que a literatura associa à durabilidade de cerca de 10 a 15 anos quando bem indicada.

SMAS estendido e high SMAS. A dissecação sobe mais e o retalho de SMAS é tracionado separadamente da pele, alcançando melhor a face média. Uma limitação importante das técnicas mais superficiais é que, se os ligamentos zigomático e massentrérico não forem liberados, a tração não se transmite à região malar — ou seja, não se corrige bem o sulco nasogeniano [DOI].

Deep plane e composto. São as técnicas que disseca abaixo do SMAS, no plano sub-SMAS, liberando ativamente os ligamentos de retenção e movendo pele e SMAS como uma unidade única. Por isso entregam reposicionamento real da face média e do pescoço, com excelente vascularização do retalho e menos dependência de enxertos de gordura para volumizar. As revisões anatômicas mais recentes detalham os espaços de deslização sub-SMAS e as transições do nervo facial que tornam essa dissecação segura nas mãos certas [DOI] [DOI].

Não existe técnica “melhor” em abstrato. Existe a técnica certa para a anatomia, o grau de envelhecimento e os objetivos daquela pessoa — e essa decisão é minha responsabilidade como cirurgiã.

O nervo facial e por que a segurança mora na anatomia

Um ponto que pacientes raramente perguntam, mas que define a segurança de tudo: o nervo facial corre logo abaixo do SMAS em planos previsíveis. É precisamente o conhecimento tridimensional de onde o SMAS termina e onde os ramos do nervo transitam que permite operar o plano profundo com segurança. As revisões atuais de técnica de lifting de 2025 enfatizam justamente isso: o avanço não está em um aparelho novo, mas na caracterização cada vez mais precisa da anatomia tridimensional do nervo facial e dos planos seguros de dissecação [DOI]. Por isso eu insisto: cirurgia de face é anatomia aplicada, não marketing de técnica.

SMAS não é só para cirurgia

Vale um esclarecimento que considero importante para quem ainda não pensa em cirurgia. O SMAS também é referência para procedimentos não cirúrgicos. Ele funciona como um “medidor de profundidade” para a aplicação segura de preenchedores e bioestimuladores, separando os planos superficial e profundo da face [DOI]. Entender o SMAS, portanto, não serve apenas para decidir uma cirurgia — serve para entender todo o raciocínio de rejuvenescimento facial individualizado, do preenchimento ao lifting.

O que eu quero que você leve deste texto

O SMAS é o alicerce. Envelhecer o rosto é, em grande parte, o afrouxamento e a descida desse sistema e de seus ligamentos; rejuvenescer com naturalidade e durabilidade é reposicioná-lo, deixando a pele acompanhar sem tensão. É por isso que, na minha prática, a conversa nunca começa por “qual técnica”, e sim por “qual é a sua anatomia e o que faz sentido para você”. A técnica é consequência do diagnóstico — nunca o contrário.

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Dra. Ana Carolina Chociai — Cirurgiã Plástica, CRM-PR 27216, RQE 18855.

Referências

1. Minelli L, Brown CP, van der Lei B, Mendelson B. Anatomy of the Facial Glideplanes, Deep Plane Spaces, and Ligaments: Implications for Surgical and Nonsurgical Lifting Procedures. Plast Reconstr Surg. 2024;154(1):95-110. doi:10.1097/PRS.0000000000011078. Disponível em: https://doi.org/10.1097/PRS.0000000000011078 · PubMed

2. Kaya KS, Cakmak O. Facelift Techniques: An Overview. Facial Plast Surg. 2022;38(6):540-545. doi:10.1055/a-1877-9371. Disponível em: https://doi.org/10.1055/a-1877-9371 · PubMed

3. Surek CC, Moorefield A. Deep Plane Anatomy for the Facelift Surgeon: A Comprehensive Three-Dimensional Journey. Facial Plast Surg Clin North Am. 2022;30(2):205-214. doi:10.1016/j.fsc.2022.01.015. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.fsc.2022.01.015 · PubMed

4. Talei B, Ziai H. The Detailed Anatomy of the Deep Plane of the Face and Neck with Current Nomenclature. Facial Plast Surg. 2024;40(6):680-686. doi:10.1055/a-2268-6735. Disponível em: https://doi.org/10.1055/a-2268-6735 · PubMed

5. Boyd CJ, Ceradini DJ. Current Trends in Facelift and Necklift Procedures. J Clin Med. 2025;14(12):4273. doi:10.3390/jcm14124273. Disponível em: https://doi.org/10.3390/jcm14124273 · PubMed

6. Sykes JM, Riedler KL, Cotofana S, Palhazi P. Superficial and Deep Facial Anatomy and Its Implications for Rhytidectomy. Facial Plast Surg Clin North Am. 2020;28(3):243-251. doi:10.1016/j.fsc.2020.03.005. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.fsc.2020.03.005 · PubMed

7. Surek CC. Facial Anatomy for Filler Injection: The Superficial Musculoaponeurotic System (SMAS) Is Not Just for Facelifting. Clin Plast Surg. 2019;46(4):603-612. doi:10.1016/j.cps.2019.06.007. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.cps.2019.06.007 · PubMed

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