Blefaroplastia combinada com laser: a ciência apresentada no Fotona International Meeting 2026

O Fotona International Meeting reúne, a cada edição, médicos de diferentes países dedicados à medicina a laser. Na edição de junho de 2026, em Portorož, na Eslovênia, apresentei, pela quarta vez como palestrante do encontro, o tema da blefaroplastia combinada com laser e o modo como a associação entre cirurgia e tecnologia pode aprimorar o resultado ao redor dos olhos. A premissa defendida talvez soe inesperada em um congresso de tecnologia: o resultado de uma cirurgia de pálpebras não é determinado pelo equipamento utilizado, mas pela precisão com que se compreende o que envelheceu naquele olhar. Os principais pontos dessa apresentação estão reunidos a seguir.

A cirurgia de pálpebras é hoje a mais realizada no mundo

Pela primeira vez desde o início do levantamento anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), a blefaroplastia superou a lipoaspiração e tornou-se a cirurgia estética mais realizada no mundo, com 2,12 milhões de procedimentos registrados em 2024 e crescimento de 13,4% em relação ao ano anterior [1]. É um dado expressivo, e merece leitura cautelosa. Um volume elevado de procedimentos não corresponde, por si só, a um índice elevado de satisfação. Quando um mesmo procedimento se populariza em ritmo acelerado, cresce também o número de resultados que não correspondem à expectativa, quase sempre pela mesma razão: a decisão terapêutica foi tomada a partir do sinal aparente, e não do mecanismo que o produziu. O resultado depende daquilo que se trata e, sobretudo, da razão pela qual se trata. Foi esse o fio condutor da apresentação.

A centralidade da região dos olhos

A região periorbital não é apenas uma subunidade estética da face; funciona como um centro perceptivo. É a partir dos olhos que se interpretam, com frequência de modo inconsciente, sinais de idade, de cansaço e de vitalidade, e é para eles que o olhar do observador se dirige em primeiro lugar. A percepção de frescor e de descanso está diretamente associada ao modo como essa região é lida. Daí decorre uma consequência técnica relevante: pequenas imprecisões nas pálpebras tornam-se desproporcionalmente visíveis, porque afetam a própria identidade da face. Um olhar corrigido em excesso, ou na direção equivocada, comunica a artificialidade antes de comunicar o rejuvenescimento. O tratamento dessa área impõe, portanto, respeito rigoroso à anatomia e compromisso constante com a naturalidade.

Como a região dos olhos envelhece ao longo das décadas

O envelhecimento periorbital não é um fenômeno único, mas uma sucessão de alterações que mudam de natureza ao longo da vida. Nas faixas etárias mais jovens, as queixas costumam relacionar-se à musculatura dinâmica e à qualidade da pele. Com o passar dos anos, ganham peso a perda de volume dos compartimentos de gordura, o descenso e a alteração da posição da sobrancelha, a redução do suporte da região malar e a diminuição da elasticidade tecidual. Um mesmo sinal, como uma pálpebra que parece pesada, pode ter origem predominantemente cutânea aos quarenta anos e predominantemente estrutural aos sessenta. Identificar em que fase o tecido se encontra é o que permite indicar o tratamento correto, e não simplesmente o tratamento mais disponível.

Um sinal visível não é um diagnóstico

Esse é o conceito que estrutura toda a abordagem apresentada. Cada sinal observado na região dos olhos pode ter mais de uma causa anatômica, e tratar a aparência sem identificar o mecanismo subjacente é precisamente o que conduz a resultados insatisfatórios. Nas pálpebras, tratar apenas a superfície é um equívoco recorrente, e caro para o paciente. Alguns exemplos ilustram o ponto:

  • A ruga não corresponde exclusivamente à pele. Pode originar-se da contração da musculatura dinâmica, da perda de volume que retira o apoio da pele ou da própria qualidade cutânea. Cada uma dessas causas exige conduta distinta, e um tratamento dirigido apenas à superfície não corrige aquilo que se origina em profundidade.

  • A pálpebra parcialmente coberta na porção lateral, o chamado hooding, não se explica apenas pelo excesso de pele. Envolve, com frequência, a posição da sobrancelha e o suporte da região malar. A ressecção de pele isolada, nesses casos, não devolve a leveza do olhar e pode, inclusive, agravá-lo, ao acentuar a queda da sobrancelha.

  • A flacidez da pálpebra inferior não se corrige com ablação agressiva. A frouxidão tecidual submetida a energia excessiva pode evoluir com retração palpebral e complicações que comprometem tanto a estética quanto a função.

  • O preenchimento prévio altera o comportamento do tecido. Um olhar que recebeu ácido hialurônico responde de maneira diferente ao laser e à cirurgia, e desconsiderar esse histórico é uma fonte frequente de resultado imprevisível.

O que une esses exemplos é um princípio simples de enunciar e exigente de aplicar: antes de decidir o que fazer, é necessário compreender por que o sinal existe.

Da avaliação à conduta: a Pirâmide de Avaliação Periorbital

Para sistematizar essa leitura, a apresentação introduziu uma ferramenta autoral, a Pirâmide de Avaliação Periorbital, desenvolvida para o planejamento de cada caso. A estrutura organiza a análise em camadas — a qualidade da pele, a musculatura, o volume, o suporte estrutural e a posição da sobrancelha — e estabelece uma ordem para essa avaliação, de modo que nenhuma delas seja negligenciada antes da decisão terapêutica. A lógica é sequencial e rigorosa: primeiro compreender o mecanismo de cada sinal, depois selecionar a ferramenta adequada para tratá-lo. Sobre uma avaliação assim conduzida, o laser deixa de ser um recurso genérico, aplicado da mesma forma a todos, e passa a ocupar um papel definido e justificado dentro do plano de tratamento. É a avaliação que comanda a tecnologia, e não o contrário.

Um mesmo sistema de laser, funções distintas

Uma das características que tornam o laser Fotona útil na região periorbital é a versatilidade. Um único sistema reúne comprimentos de onda diferentes, que atuam em profundidades distintas e cumprem funções distintas conforme a indicação. O Er:YAG de 2940 nm, em modo não ablativo, aquece a pele delicada da pálpebra de forma controlada; empregado em modo ablativo, promove o resurfacing da superfície. O Nd:YAG de 1064 nm alcança planos mais profundos e permite outras aplicações, incluindo a modulação tecidual de baixa intensidade descrita adiante. Reunir essas possibilidades em uma única plataforma amplia o repertório terapêutico, mas não dispensa o critério: cada função só se justifica quando corresponde a uma necessidade identificada na avaliação.

Para pacientes selecionados, com alterações teciduais iniciais ou em contexto de manutenção após a blefaroplastia, o protocolo não cirúrgico Fotona Eyelift aquece a pele periorbital de maneira controlada, estimulando a retração cutânea e a produção de colágeno sem qualquer incisão. O aquecimento não ablativo do Er:YAG 2940 nm atua por dois mecanismos complementares: uma contração imediata das fibras de colágeno existentes e, ao longo das semanas seguintes, o estímulo aos fibroblastos com neossíntese de colágeno. Estudos conduzidos na pele periocular demonstraram melhora clínica e estatisticamente significativa das rugas, mantida por até 12 meses após a última sessão, sem o período de descamação característico dos lasers ablativos [2][3]. É uma estratégia valiosa, desde que reservada a quem dela efetivamente se beneficia.

Quando a cirurgia é necessária, e como o laser aprimora o resultado

O laser amplia as possibilidades terapêuticas, mas não substitui a cirurgia diante de excesso real de pele ou de perda de suporte estrutural. Reconhecer esse limite com clareza faz parte de uma indicação honesta. Nessas situações, as duas abordagens se associam: o laser pode ser empregado durante a blefaroplastia — o blefarolaser — ou combinado à correção estrutural, conforme o que a avaliação indicar.

Foi precisamente esse o objeto do estudo apresentado no ASLMS 2026, o congresso da Sociedade Americana de Medicina e Cirurgia a Laser, no qual foram comparadas a blefaroplastia superior assistida por laser e a técnica convencional, avaliando-se hemostasia, efeito térmico e recuperação inicial. O uso do laser como instrumento de corte favorece o controle do sangramento durante o procedimento, o que contribui para um campo cirúrgico mais limpo, para uma dissecção mais precisa e, potencialmente, para uma recuperação mais previsível. Esse benefício, contudo, só se sustenta dentro de parâmetros criteriosos: a energia mal dosada produz dano térmico aos tecidos adjacentes, de modo que a vantagem da técnica depende inteiramente do domínio dos ajustes e da anatomia [4]. É um exemplo concreto de como a tecnologia, bem indicada e bem controlada, agrega valor à cirurgia sem substituí-la.

Fotobiomodulação: a luz que trata sem aquecer

A apresentação encerrou-se com um uso mais sutil da luz, a fotobiomodulação. Diferentemente dos lasers que atuam pelo calor, aqui as intensidades empregadas são tão baixas que a variação de temperatura do tecido é mínima, entre 0,1 e 0,5 °C. O objetivo não é a retração da pele, e sim a modulação biológica da recuperação, com favorecimento da cicatrização e redução do desconforto no pós-operatório. Trata-se, portanto, da mesma família de tecnologia empregada com finalidade inteiramente distinta. Esse contraste confirma um princípio que atravessou toda a apresentação: é o parâmetro, e não o aparelho, que determina o efeito. Duas aplicações do mesmo laser podem cumprir propósitos opostos, e apenas o raciocínio clínico define qual delas serve a cada paciente.

As conclusões apresentadas

A apresentação resumiu-se em princípios que se aplicam tanto ao debate científico entre pares quanto à conversa individual em consultório. O diagnóstico precede a intervenção. A anatomia determina a indicação. O laser amplia possibilidades quando a avaliação é precisa, e apenas quando ela é precisa. A tecnologia deve seguir o raciocínio clínico, jamais substituí-lo. Levar essa discussão a um congresso internacional, submetê-la ao escrutínio de colegas de todo o mundo e confrontá-la com a evidência mais atual é parte do que sustenta uma prática baseada em ciência, e não em modismo.

A pergunta frequente sobre se o laser resolve a questão das pálpebras tem uma única resposta responsável: é necessário, antes, compreender o olhar de cada paciente — o que mudou, por que mudou e em qual camada. O tratamento adequado começa nesse entendimento, e dele depende um resultado natural, seguro e duradouro.

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Referências

  1. International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). ISAPS Global Survey 2024 — Full Report. 2025. isaps.org/global-survey-2024

  2. Kaufmann R, et al. Periocular rejuvenation using a non-ablative long-pulse 2940 nm Er:YAG laser. Lasers Med Sci. 2021. DOI: 10.1007/s10103-021-03362-6 — PubMed: 34146192

  3. Lukac M, et al. Characteristics of non-ablative resurfacing of soft tissues by repetitive Er:YAG laser pulse irradiation. 2021. PMC8518959

  4. Efficacy and safety of long pulse 1064 and 2940 nm lasers in noninvasive lipolysis and skin tightening. 2020. PMC7065637

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