Cosme e Damião: os médicos gêmeos que viraram protetores das crianças no Brasil

Hoje é 27 de setembro, e no Brasil isso quer dizer saquinho de doce. Quem cresceu no Rio lembra das crianças correndo pela rua atrás de quem estava "dando Cosme e Damião". Quem cresceu na Bahia lembra do caruru servido primeiro aos meninos, antes dos adultos. Mas existe um detalhe que quase ninguém conta na hora de distribuir os doces, e que para mim, como médica, torna a data ainda mais especial: Cosme e Damião eram médicos.

Mais do que isso, são até hoje os padroeiros dos médicos, dos cirurgiões e dos farmacêuticos. No Instagram de hoje, reuni algumas das obras de arte em que eles aparecem, e também uma foto que tirei em Split, na Croácia, sobre a qual conto mais abaixo. Como é domingo, resolvi contar com calma de onde vem essa história, do jeito que fizemos com a Odisseia e a recusa de Ulisses: uma conversa leve sobre cultura, com os olhos de quem opera todos os dias.

Quem foram Cosme e Damião

Segundo a tradição, Cosme e Damião eram irmãos gêmeos, nascidos na Arábia no século III, que exerciam a medicina em Egeia, uma cidade portuária da Cilícia, região que hoje fica no sul da Turquia. Ficaram conhecidos por um motivo muito específico: não cobravam pelos atendimentos.

Por isso a tradição cristã do Oriente os chama de anárgiros, palavra grega que significa algo como "os sem prata" ou "os que não aceitam dinheiro". Eles tratavam quem aparecesse, rico ou pobre, e essa gratuidade era parte de como falavam da própria fé.

Foram presos durante a perseguição do imperador Diocleciano aos cristãos, por volta do ano 287 ou 303, e executados. A história de que "não morreram" nas primeiras tentativas de execução (cruz, pedras, flechas) é lenda, mas diz muito sobre como o povo passou a vê-los: como médicos que nem a violência conseguia vencer.

O culto a eles se espalhou rapidamente. No século VI, o papa Félix IV transformou um edifício do Fórum Romano na Basílica dos Santos Cosme e Damião, que existe até hoje, com mosaicos da época mostrando os dois irmãos. Para um santo "de fora" de Roma, isso é uma honra enorme, e mostra o quanto a figura do médico que cuida sem pedir nada em troca tocava as pessoas.

E aqui entra uma lembrança pessoal. Estive em Split, na Croácia, e visitei o Palácio de Diocleciano, justamente o palácio que o imperador construiu para passar a aposentadoria. No museu do palácio, vi uma relíquia de São Cosme e São Damião, guardada num relicário dourado em forma de dedo. Confesso que saí de lá pensando na ironia da história: o imperador que mandou perseguir e executar os dois médicos hoje tem, dentro da própria casa, a lembrança deles guardada com carinho. O mausoléu de Diocleciano, aliás, virou a Catedral de São Domnio, outro mártir da mesma perseguição. O tempo, às vezes, tem um senso de justiça muito particular. A foto dessa relíquia está no carrossel de hoje no Instagram.

Relicário em forma de dedo, de São Cosme e São Damião, exposto no museu do Palácio de Diocleciano, em Split, Croácia

Relicário de São Cosme e São Damião no museu do Palácio de Diocleciano, em Split, na Croácia. Foto: Dra. Ana Carolina Chociai.

A história dos três ovos que quase separou os irmãos

Existe uma passagem da vida deles que eu acho a mais humana de todas, e ela foi registrada na Legenda Áurea, uma coletânea medieval de vidas de santos. Uma mulher chamada Paládia, curada de uma hemorragia que ninguém conseguia tratar, quis agradecer e ofereceu três ovos. Os irmãos recusaram, como sempre faziam. Ela insistiu, pedindo "em nome de Cristo", e Damião acabou aceitando.

Cosme ficou tão contrariado que pediu, publicamente, para não ser enterrado ao lado do irmão. A lenda termina com um final quase de fábula: depois da morte dos dois, uma voz (em algumas versões, a de um camelo que eles haviam tratado) orienta o povo a sepultá-los juntos, porque Damião não tinha aceitado pagamento, e sim respeitado o gesto de gratidão da paciente.

Eu gosto dessa história porque ela fala de algo que qualquer médico reconhece: a relação com o paciente não é uma transação, mas também não é uma via de mão única. Receber um agradecimento, um abraço no retorno, um bilhete escrito à mão, faz parte do cuidado. Damião entendeu isso antes do irmão.

O milagre da perna: o primeiro "transplante" da arte ocidental

Se existe uma imagem que liga Cosme e Damião à cirurgia, é o chamado "milagre da perna negra". Segundo a lenda medieval, o sacristão da basílica deles em Roma (a tradição posterior o chama de diácono Justiniano) tinha uma perna tomada por uma ferida que não cicatrizava, provavelmente um tumor. Uma noite, ele sonhou que os dois irmãos apareciam, amputavam a perna doente e colocavam no lugar a perna de um homem etíope que havia sido sepultado naquele dia. Ao acordar, estava curado, com uma perna de outra cor.

Essa cena foi pintada muitas vezes. Fra Angelico a incluiu no retábulo que fez para o convento de San Marco, em Florença, e uma das versões mais famosas, atribuída ao Mestre de Los Balbases, por volta de 1495, está hoje na Wellcome Collection, em Londres. Artigos de história da cirurgia se referem a ela como a primeira representação de um transplante de tecido composto, ou seja, pele, músculo, osso, vasos e nervos transferidos de uma pessoa para outra (1–3).

Como cirurgiã plástica, confesso que olho essas pinturas com um sorriso. Porque aquilo que era "milagre" no século XV virou, cinco séculos depois, uma das fronteiras mais sofisticadas da nossa especialidade. O primeiro transplante de mão foi feito em Lyon, em 1998. Em 2005, em Amiens, na França, uma equipe de cirurgiões realizou o primeiro transplante parcial de face do mundo, reconstruindo nariz, lábios e queixo de uma paciente com tecido de uma doadora (4). Os santos, na pintura, precisaram de anjos. Os cirurgiões precisaram de microcirurgia, anastomoses de vasos com fios mais finos que um fio de cabelo e medicamentos para evitar a rejeição.

E há um detalhe que, com olhos de hoje, também chama atenção: na lenda, ninguém perguntou nada ao doador. A medicina moderna só existe porque aprendeu a colocar o consentimento no centro de tudo. É uma leitura que alguns autores também fazem desse quadro, como um convite a pensar a ética e o cuidado, e não só a técnica (3).

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O que a cirurgia aprendeu desde então: o melhor tecido costuma ser o seu

Existe uma lição silenciosa nessa história que eu uso todos os dias no consultório. O transplante entre pessoas diferentes é possível, mas tem um preço alto: exige imunossupressão pelo resto da vida. Por isso, na cirurgia reconstrutiva e estética, a regra de ouro é outra: sempre que possível, usar o tecido do próprio paciente.

É o que fazemos no enxerto de gordura, quando transferimos a gordura da própria pessoa para devolver volume e qualidade de pele ao rosto, sem risco de rejeição. É o que fazemos em reconstruções menores, como a de um lóbulo de orelha rasgado, em que o próprio tecido da orelha é reorganizado. Cosme e Damião, na lenda, trocaram a perna. A cirurgia moderna, na maioria das vezes, prefere reaproveitar, reposicionar e regenerar o que já é do paciente. É menos espetacular numa pintura, mas muito mais seguro na vida real.

Dos Médici de Florença aos cirurgiões de Paris

Na Renascença, Cosme e Damião ganharam uma família de patronos famosa: os Médici, de Florença. O sobrenome já sugere a ligação, porque lembra a palavra italiana para "médicos", e o grande patriarca da família se chamava justamente Cosimo, a forma italiana de Cosme. Foi ele quem encomendou a Fra Angelico o retábulo de San Marco, onde os dois irmãos aparecem ajoelhados diante da Virgem. Os santos médicos viraram, assim, uma espécie de "marca" de uma das famílias mais poderosas da Europa.

Em Paris, os cirurgiões medievais se organizaram na confraria de São Cosme, e por séculos os dois irmãos foram símbolo de corporações de cirurgiões e boticários em vários países europeus. Até hoje há hospitais com o nome deles na Itália, na Hungria e na Bulgária, e guildas médicas que os mantêm como patronos (5, 6).

Como os santos médicos viraram protetores das crianças no Brasil

E aqui chegamos ao Brasil, onde a história ganha uma camada linda e muito nossa. Por serem gêmeos, Cosme e Damião foram associados pelos africanos escravizados aos Ibejis, os orixás gêmeos da tradição iorubá, que representam a infância, a alegria e a dualidade. Proibidos de cultuar livremente suas divindades, eles encontraram nos santos católicos uma forma de manter viva a própria fé. É o que os historiadores chamam de sincretismo (7).

Com o tempo, a imagem dos santos foi "rejuvenescendo" no imaginário popular. Nas imagens brasileiras, Cosme e Damião aparecem muitas vezes como meninos, e às vezes com um terceiro irmão menor, Doum, cujo nome vem da tradição iorubá para a criança que nasce depois de gêmeos. Nas religiões de matriz africana, a festa se liga também aos erês, as entidades infantis. Daí nasceram as tradições que conhecemos: o caruru dos sete meninos na Bahia, em que as crianças comem primeiro, e os saquinhos de doces distribuídos no Rio de Janeiro e em muitas outras cidades, muitas vezes como pagamento de uma promessa feita pela saúde de um filho.

Existe ainda um capítulo pernambucano dessa história: a Igreja dos Santos Cosme e Damião, em Igarassu, começou a ser construída em 1535 e é reconhecida pelo IPHAN como a igreja mais antiga do Brasil ainda de pé (8). Ou seja, os santos médicos estão com a gente desde o começo.

Oficialmente, desde 1969 a Igreja Católica celebra os dois no dia 26 de setembro. Mas o Brasil manteve o 27, e sinceramente eu acho que não há reforma de calendário capaz de tirar das crianças o dia do doce.

O que eu levo de Cosme e Damião para o consultório

Não é preciso ter fé para se encantar com essa história. Eu vejo nela três ideias que continuam atuais:

A medicina começa pela escuta, não pelo procedimento. Os anárgiros ficaram famosos porque atendiam pessoas, não porque vendiam soluções. Na cirurgia plástica, isso significa que nem todo paciente precisa de cirurgia, e que uma boa consulta às vezes termina com a recomendação de não fazer nada agora.

A técnica sem ética é só habilidade. O milagre da perna é bonito, mas é o consentimento, a indicação correta e o cuidado com quem doa e com quem recebe que fazem da cirurgia uma prática médica.

Cuidar é um trabalho a quatro mãos. Eram dois irmãos, não um herói solitário. Toda boa medicina é feita em equipe, com anestesista, enfermagem, fisioterapia, dermatologia e, principalmente, com o paciente.

Então, se hoje você ganhar ou der um saquinho de doces, lembre que por trás dele há dois médicos do século III, uma perna pintada por anjos, uma família florentina, um palácio de imperador na Croácia, uma igreja em Pernambuco e uma tradição afro-brasileira que transformou santos adultos em protetores da infância. Poucas datas do nosso calendário juntam tanta história, tanta medicina e tanta doçura.

Um ótimo domingo, e um feliz dia de Cosme e Damião.

Dra. Ana Carolina Chociai, cirurgiã plástica, CRM-PR 27216, RQE 18855. Responsável técnica da Clínica Chociai.

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Referências

  1. van Gulik TM. The miracle transplantation of a black leg by the surgeon saints Cosmas and Damian. Hepatobiliary Surg Nutr. 2024;13(1):1-2. doi:10.21037/hbsn-24-26

  2. Nakayama DK. Saints Cosmas and Damian and the traditions of faith and charity in medicine. Am Surg. 2022;88(12):2781-2783. doi:10.1177/00031348221074244

  3. Gelfman DM. The miracle of the black leg: does this painting depict the first leg transplant in the third century CE? Clin Dermatol. 2026;44(4):617-620. doi:10.1016/j.clindermatol.2026.01.014

  4. Devauchelle B, Badet L, Lengelé B, Morelon E, Testelin S, Michallet M, et al. First human face allograft: early report. Lancet. 2006;368(9531):203-9. doi:10.1016/S0140-6736(06)68935-6

  5. Yeung R, Wong TW. The Guild of St Luke, St Cosmas and St Damian. Hong Kong Med J. 2026;32(1):87-88. doi:10.12809/hkmj-hkmms202602

  6. Williams JT, Kissin ER, Kissin MW. Miracles, martyrdom and violence: historical origins of the patron saints of trauma and orthopaedic surgery. Cureus. 2022;14(1):e21355. doi:10.7759/cureus.21355

  7. Itaú Cultural. A festa dos gêmeos: o sincretismo nas festas de Ibeji e de Cosme e Damião. itaucultural.org.br

  8. IPHAN. Roteiro do Patrimônio: Igreja dos Santos Cosme e Damião, Igarassu (PE). portal.iphan.gov.br

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