Rosto com excesso de preenchimento: por que a cirurgia por vídeo em plano profundo é um tratamento, e não uma contraindicação

Existe uma frase que chega ao consultório com frequência. "Me disseram que eu não posso operar porque tenho preenchimento." Ela é quase sempre falsa. Em boa parte desses casos, a cirurgia não é o que está proibido. A cirurgia é justamente o que resolve.

O Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em volume de preenchedores injetados e de lifting facial, segundo levantamento recente de complicações publicado na literatura brasileira.1 Uma consequência previsível desse volume começa a aparecer agora nos consultórios: uma geração de pacientes que recebeu produto em quantidade e por tempo suficientes para mudar a arquitetura do próprio rosto.

O que o excesso de produto faz com um rosto

A literatura já batizou esse quadro. Chama-se síndrome do rosto sobrepreenchido, descrita em 2024 em artigo de anatomia aplicada.2 Ela não é um acidente isolado. É uma condição progressiva, construída sessão após sessão, ao longo de anos.

As apresentações são reconhecíveis. Testa alargada e abaulada. Olhos que parecem menores, empurrados para cima pelo volume da bochecha. Maçãs do rosto largas demais em relação à mandíbula. Queixo projetado além do contorno natural. O conjunto ganhou o apelido de "rosto de travesseiro".

Há um detalhe que explica muita coisa e que quase nunca é dito à paciente. A gordura do próprio rosto tem densidade em torno de 0,9 grama por mililitro. O ácido hialurônico injetável pesa mais de 1 grama por mililitro.2 Ou seja: o produto é mais pesado que o tecido que ele foi colocado para substituir.

Esse peso se concentra na parte anterior da bochecha. Com o tempo, ele puxa a região para baixo. O resultado é paradoxal e frustrante para quem injetou buscando sustentação: o sulco entre o nariz e a boca fica mais profundo, não mais raso.

Há também um efeito sobre o movimento. Volume excessivo colocado nas camadas profundas alonga os músculos que elevam o lábio.2 Músculo alongado contrai com dificuldade. É por isso que alguns rostos parecem normais em repouso e estranhos ao sorrir.

O produto não some como se acreditava

Durante anos, pacientes ouviram que o ácido hialurônico duraria de seis a doze meses. Os exames de imagem contam outra história.

Um estudo de ressonância magnética acompanhou o produto injetado em diferentes regiões do rosto.3 No queixo, houve degradação quase completa em dezenove meses. Nas laterais da face e nos compartimentos profundos da região média, o material continuava visível aos vinte e sete meses. Ele não havia migrado. Ele simplesmente permanecia ali.

Exames de ultrassom vão além. Há registro de produto ainda identificável mais de sete anos após a aplicação.2 O material não desaparece. Ele se espalha, se organiza dentro do tecido e passa a fazer parte da arquitetura da face.

Isso muda a leitura da consulta. Quando uma paciente diz que o rosto "mudou", muitas vezes ela não está descrevendo envelhecimento. Está descrevendo a soma de aplicações que nunca foram embora.

Nem todo produto pode ser dissolvido

A hialuronidase é a enzima que dissolve o ácido hialurônico. Ela funciona, e funciona bem, na maioria das situações. Mas ela tem dois limites importantes.

O primeiro limite é o próprio tecido. Estudos com ultrassom mostraram granulomas inativos, ou seja, pequenos nódulos de reação do organismo ao produto, encapsulados por uma camada fibrosa.2 Cápsula fechada significa enzima que não chega ao conteúdo. Aplicar mais hialuronidase não resolve o que ela não consegue alcançar.

O segundo limite é a natureza do produto. A hialuronidase só dissolve ácido hialurônico. Ela não tem efeito algum sobre metacrilato, silicone, hidrogéis de poliacrilamida ou qualquer material não absorvível. E esses produtos foram injetados em muitas faces brasileiras ao longo das últimas duas décadas.

É aqui que a conversa precisa ser honesta. Para o material que não se dissolve, existem apenas duas condutas possíveis: conviver com ele ou retirá-lo cirurgicamente. Não há terceira via.

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Ter produto na face não contraindica a cirurgia

Existe um receio disseminado de que o preenchimento prévio inviabilize o lifting. A literatura mostra o contrário, e mostra com números.

Um estudo publicado em 2022 acompanhou cinquenta pacientes que tinham recebido metacrilato e foram operados exatamente por causa disso.4 O quadro que os levou à cirurgia era grave. Oitenta e dois por cento tinham assimetria facial. Vinte e seis por cento apresentavam inchaço permanente que deformava o rosto. Vinte e quatro por cento tinham infecção de pele. Doze por cento tinham granulomas visíveis, e alguns chegaram ao consultório com abscesso.

O volume de material retirado durante as cirurgias variou de quinze a vinte mililitros. O produto estava principalmente logo abaixo da pele. Mas, na maioria dos casos, ele também havia atingido o SMAS, que é a camada muscular e fibrosa profunda do rosto, e o espaço abaixo dela.

Os resultados justificam a indicação. A assimetria evidente caiu de cerca de quarenta e quatro por cento das pacientes para menos de dez por cento. Oitenta e quatro por cento se declararam satisfeitas ou muito satisfeitas. Oitenta e seis por cento recomendariam a cirurgia a uma amiga.

Um dado do mesmo estudo merece atenção. Oitenta e seis por cento dessas pacientes disseram que o preenchimento permanente não havia sido a decisão correta. A cirurgia, sim.

Por que a via endoscópica em plano profundo faz diferença nesses casos

Cirurgia endoscópica da face significa operar com uma câmera. Uma óptica fina entra por incisões pequenas, escondidas no couro cabeludo e atrás da orelha, e projeta a anatomia ampliada em um monitor. O cirurgião não trabalha por tato nem por memória. Ele trabalha olhando.

Em plano profundo, a dissecção acontece abaixo do SMAS, no espaço onde ficam os ligamentos de retenção, que são as estruturas fibrosas que ancoram o rosto ao osso. É esse plano que permite reposicionar o tecido de verdade, em vez de apenas tracionar a pele.

Num rosto com produto acumulado, essa combinação importa por três razões concretas.

A primeira é vascular. A técnica clássica exige descolar uma grande área de pele. Num rosto onde o produto criou fibrose, ou seja, tecido cicatricial endurecido, esse descolamento amplo é justamente onde mora o risco de sofrimento da pele. A via profunda preserva a rede de vasos que fica logo abaixo da derme.

A segunda é a visão. Grande parte do material se aloja no plano profundo e junto aos ligamentos, exatamente onde a mão isolada enxerga menos. A câmera ampliada mostra o depósito, a cápsula fibrosa ao redor e o ramo nervoso que passa perto. Estudos anatômicos recentes mapearam em milímetros o corredor seguro entre os ligamentos da região malar, e esse mapa só é útil para quem está vendo a região.5

A terceira é a segurança demonstrada. A maior série publicada de rejuvenescimento facial por via endoscópica em plano profundo reuniu seiscentos casos ao longo de vinte e dois anos.6 Não houve nenhum caso de necrose de pele. Não houve nenhuma lesão nervosa permanente. Apenas vinte pacientes precisaram de um retoque posterior.

É preciso registrar uma ressalva técnica, por honestidade. Depósitos muito superficiais de produto podem exigir um acesso dirigido logo abaixo da pele, feito de forma pontual. A via endoscópica reduz muito a extensão desse descolamento. Ela não o elimina em todos os casos.

Retirar não basta: por que o enxerto de gordura entra no plano

Há uma observação repetida em todos os trabalhos sobre remoção de preenchedor. Depois que o material sai, o rosto murcha.4 A paciente perde o contorno da mandíbula ou fica com um volume estranho abaixo da maçã do rosto. O produto ocupava um espaço, e esse espaço fica vazio.

É por isso que retirar e repor devem fazer parte da mesma conversa. E a reposição ideal não é outro produto industrializado. É gordura da própria paciente.

O trabalho mais direto sobre isso acompanhou trinta e três pacientes que tinham tido reação inflamatória a preenchedores permanentes.7 Depois da remoção do material, todas receberam enxerto de gordura autóloga, ou seja, gordura retirada do próprio corpo e transferida para o rosto. Na avaliação de volume, vinte e duas tiveram melhora expressiva e oito, melhora moderada.

O achado mais interessante não foi o volume. Foi a qualidade do tecido. Vinte e cinco das trinta e três pacientes tiveram melhora expressiva das áreas atrofiadas e cicatriciais, com espessamento visível da pele e, em alguns casos, desaparecimento das cicatrizes.

Isso tem explicação biológica. A gordura não é apenas um material de volume. Ela carrega células-tronco e fatores de crescimento que atuam sobre o tecido ao redor. Onde o produto industrial deixou fibrose, a gordura devolve trofismo, que é a qualidade e a vitalidade da pele.

Como toda técnica, ela tem limites. Uma revisão sistemática de complicações do enxerto de gordura facial mostrou que as intercorrências mais frequentes são irregularidade de contorno e inchaço prolongado.8 São problemas administráveis, e a maioria não exige nova cirurgia. Mas eles existem, e a paciente precisa saber disso antes.

Dúvidas práticas de quem tem produto no rosto

Preciso dissolver antes da cirurgia? Depende do produto e de onde ele está. Se é ácido hialurônico em plano acessível, dissolver antes costuma simplificar o planejamento. Se está encapsulado, ou se não é ácido hialurônico, a hialuronidase não vai adiantar. A decisão se toma caso a caso, na consulta.

Como saber o que eu tenho e onde está? Nem sempre a paciente sabe o nome do produto que recebeu. Exames de imagem ajudam. No estudo com cinquenta pacientes citado acima, todas fizeram ressonância magnética antes da cirurgia, para mapear volume, profundidade e localização do material.4 O ultrassom também é útil para depósitos mais superficiais.

A cirurgia retira todo o produto? Retira o que está acessível, especialmente os depósitos encapsulados e os granulomas. Material muito difuso e infiltrado no tecido nem sempre sai por completo. O objetivo realista não é esvaziar o rosto de qualquer vestígio. É restaurar simetria e contorno.

A cirurgia demora mais por causa do produto? Sim. No estudo citado, o tempo cirúrgico variou de quatro horas e meia a sete horas.4 A remoção do material é uma etapa a mais, e ela é minuciosa.

Posso fazer tudo na mesma cirurgia? Na maioria dos casos, sim. Remoção do material, reposicionamento profundo e enxerto de gordura podem ser realizados no mesmo tempo cirúrgico. Isso evita uma segunda recuperação.

Do reparo ao rejuvenescimento

A paciente que tem produto acumulado no rosto costuma chegar à consulta constrangida. Muitas acreditam que tomaram uma decisão irreversível anos atrás. Na maior parte das vezes, não tomaram.

O que muda nesses casos não é a indicação da cirurgia, e sim o planejamento dela. Antes de operar, é preciso saber o que foi injetado, em que camada e em que quantidade. Durante a cirurgia, é preciso enxergar o que está sendo retirado. Depois, é preciso devolver com tecido vivo o espaço que o material ocupava.

A cirurgia, nesses casos, não é o que sobra quando o preenchimento falha. Ela é o tratamento. É o que retira o material que endureceu o tecido, reposiciona o que o peso do produto empurrou para baixo e repõe volume onde houve perda real.

Boa parte desse trabalho é reparadora. Retirar granulomas, corrigir assimetria e tratar inflamação devolve o rosto a um ponto de partida saudável.

Mas a cirurgia não termina aí. O mesmo tempo cirúrgico reposiciona os tecidos e repõe volume, e é isso que transforma reparo em rejuvenescimento. Uma paciente que chega com o rosto pesado e assimétrico pode sair com o contorno definido, a expressão livre e a pele de melhor qualidade.

O primeiro passo é uma consulta médica, presencial ou por teleconsulta. É nela que se define o que precisa ser investigado por imagem antes de qualquer decisão.

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Referências

  1. Melo GM, Romero RD, Rosano M, Vieira JG, Neves MC. Sialendoscopy as treatment of face aesthetic surgery complications: technical note. Braz J Otorhinolaryngol. 2026;92(4):101821. doi:10.1016/j.bjorl.2026.101821

  2. Lim TS, Wanitphakdeedecha R, Yi KH. Exploring facial overfilled syndrome from the perspective of anatomy and the mismatched delivery of fillers. J Cosmet Dermatol. 2024;23(6):1964-1968. doi:10.1111/jocd.16244

  3. Master M, Roberts S. Long-term MRI follow-up of hyaluronic acid dermal filler. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2022;10(4):e4252. doi:10.1097/GOX.0000000000004252

  4. Alaslawi AAF, Zeina AM, Zahra T. Facelift surgery after permanent filler: outcomes after removal of permanent filler under local anesthesia. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2022;10(8):e4459. doi:10.1097/GOX.0000000000004459

  5. Temizsoy Korkmaz F, Karip BZ, Ok F, Karip B. The osteocutaneous anchor of the face: zygomatic cutaneous ligament, quantitative topographic map and histologic proof. J Craniofac Surg. 2025. doi:10.1097/SCS.0000000000011877

  6. Kao CC, Duscher D. The ponytail lift: 22 years of experience in 600 cases of endoscopic deep plane facial rejuvenation. Aesthet Surg J. 2024;44(7):671-692. doi:10.1093/asj/sjad382

  7. De Santis G, Pinelli M, Benanti E, Baccarani A, Starnoni M. Lipofilling after laser-assisted treatment for facial filler complication: volumetric and regenerative effect. Plast Reconstr Surg. 2021;147(3):585-591. doi:10.1097/PRS.0000000000007611

  8. Schiraldi L, Sapino G, Meuli J, et al. Facial fat grafting (FFG): worth the risk? A systematic review of complications and critical appraisal. J Clin Med. 2022;11(16):4708. doi:10.3390/jcm11164708

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