Flacidez corporal na lipoaspiração: por que eu escolho o laser durante a cirurgia

Uma pergunta volta sempre na consulta de contorno corporal: "se eu fizer a lipo, minha pele vai acompanhar, ou vai sobrar?" É uma pergunta justa. A lipoaspiração é muito eficiente para remover gordura — mas ela não foi pensada para, por si só, fazer a pele encolher. Em quem já tem algum grau de flacidez, mesmo leve, a lipoaspiração isolada pode deixar um resultado estranho: menos volume, mas a mesma pele solta por cima.

Por isso, há mais de duas décadas, a cirurgia de contorno corporal passou a usar, dentro da própria lipoaspiração, tecnologias de energia que ajudam a pele a se retrair junto com a gordura que sai. Não é um tratamento à parte — é um passo dentro da mesma cirurgia. E, entre essas tecnologias de retração de pele, a que eu mais uso durante a cirurgia é o laser.

Neste texto, explico as quatro tecnologias que se juntam à lipoaspiração para tratar gordura e flacidez ao mesmo tempo — o que cada uma faz, quando cada uma é a escolha certa e, no final, por que eu, na hora de operar, escolho o laser.

A lipoaspiração remove a gordura. Mas a pele não encolhe por conta própria

Pense na pele do abdômen, dos braços, dos flancos ou da parte interna das coxas como um tecido ligado por dentro a uma rede de fibras finas, que prendem a pele aos músculos por baixo, atravessando a camada de gordura. Com o tempo, essa rede de fibras vai perdendo firmeza, e duas proteínas da própria pele — o colágeno, que dá sustentação, e a elastina, que faz a pele voltar ao lugar depois de esticar — perdem qualidade e quantidade.

Quando a lipoaspiração remove a gordura que preenchia esse espaço, a pele precisa se ajustar ao novo volume. Numa pele jovem, com colágeno e elastina ainda firmes, esse ajuste costuma acontecer naturalmente. Mas numa pele que já tinha flacidez — depois de uma gravidez, depois de perder peso, ou simplesmente pela idade —, a pele sobra. É exatamente esse grupo de pacientes, que quer tratar a gordura sem fazer uma cirurgia com cicatriz para retirar o excesso de pele, que mais se beneficia de uma tecnologia associada à lipoaspiração.

As quatro tecnologias que ajudam a lipoaspiração a tratar a pele

Toda lipoaspiração começa do mesmo jeito: uma cânula fina entra pela pele e aspira a gordura. A diferença entre as técnicas está na energia aplicada antes ou durante essa aspiração — e é essa energia que pode, ou não, ajudar a pele a se retrair [7].

Lipoaspiração tradicional (também chamada de SAL), só com a cânula e a sucção, é a base de todas as outras técnicas — no fim, todas aspiram a gordura da mesma forma. Sozinha, ela não tem efeito relevante sobre a retração da pele [7].

Lipoaspiração com ultrassom (UAL) usa uma ponta que vibra em alta frequência para amolecer e quebrar a gordura antes de aspirar, o que facilita a remoção em áreas mais fibrosas, como as costas e os flancos. Também não contrai a pele de forma relevante [7].

Lipoaspiração com vibração mecânica (PAL) usa uma cânula que vibra para facilitar a passagem pelo tecido mais fibroso e reduzir o esforço físico do cirurgião. Como as duas anteriores, não contrai a pele por si só [7].

Lipoaspiração a laser (LAL), conhecida também por nomes comerciais como Smartlipo, usa uma fibra óptica fininha — do tamanho de um fio de cabelo mais grosso — que passa dentro da própria cânula e aplica um laser infravermelho diretamente sob a pele, enquanto a gordura é removida. É a tecnologia foco deste texto, e a que eu mais uso durante a cirurgia.

Lipoaspiração com radiofrequência (RFAL) — a tecnologia por trás de aparelhos como o BodyTite — funciona de um jeito diferente: uma cânula faz o papel de um polo elétrico por dentro do corpo, e um eletrodo por fora, sobre a pele, faz o papel do outro polo. A corrente que passa entre os dois gera calor no tecido entre eles, contraindo as fibras de colágeno. É a principal alternativa ao laser para o mesmo objetivo — contrair a pele durante a própria cirurgia — e volto a ela mais adiante no texto.

Uma revisão de 19 estudos, publicada em 2025, comparou essas quatro técnicas pela porcentagem de retração de pele obtida: a radiofrequência veio na frente, com uma média de 31%, seguida de perto pelo laser, com 30%. O ultrassom ficou em 17%, e a lipoaspiração tradicional, sem nenhuma tecnologia extra, em 12%. Mas os próprios autores dessa revisão avisam: os estudos analisados são muito diferentes entre si, e não é possível, com os dados que existem hoje, dizer que uma tecnologia é comprovadamente melhor do que a outra [1]. Vale manter essa honestidade: os números favorecem laser e radiofrequência sobre ultrassom e lipoaspiração isolada, mas entre laser e radiofrequência a diferença, até aqui, não está definida com certeza científica.

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O laser dentro da cirurgia: o que os estudos mostram

O primeiro estudo a comparar a lipoaspiração a laser com a lipoaspiração tradicional, de forma bem controlada, teve um desenho interessante: cada paciente fez um lado do abdômen com laser e o outro só com a cânula — assim, a comparação acontece dentro da mesma pessoa, sem a interferência de diferenças entre pacientes. Dez mulheres com flacidez leve a moderada foram acompanhadas por três meses. Do lado tratado com laser, a pele encolheu bem mais do que do lado tratado só com aspiração — a diferença já aparecia no primeiro mês e ficou ainda maior no terceiro mês. Um teste específico de firmeza da pele também mostrou uma melhora muito maior no lado do laser [2].

Um segundo estudo acompanhou os braços de 28 pacientes: metade foi operada com lipoaspiração a laser, a outra metade só com a cânula. A redução da circunferência do braço foi visivelmente maior no grupo que recebeu laser — uma diferença consistente o bastante para não ser explicada por acaso [3].

Em laboratório, o tecido tratado com esse mesmo laser mostrou, ao microscópio, uma destruição mais completa das células de gordura, além de um efeito leve de "cozimento" nas fibras de colágeno — esse é o mecanismo que explica por que a pele continua se retraindo nos meses depois da cirurgia, e não só no momento em que a gordura é removida [5].

Segurança: o que mostram as séries maiores

Uma análise de 537 cirurgias seguidas, feitas com lipoaspiração a laser sob anestesia local, registrou cinco complicações no local operado — uma infecção e quatro pequenas queimaduras superficiais, todas resolvidas só com cuidado local —, e nenhuma complicação mais séria no restante do corpo. A necessidade de um retoque cirúrgico depois foi bem menor nessa série do que a relatada, na literatura, para a lipoaspiração tradicional isolada [4].

Uma revisão de 2025 sobre lipoaspiração a laser, que reuniu uma série de 1.000 cirurgias consecutivas, confirmou esse mesmo perfil de segurança — poucas queimaduras, poucas infecções, poucos casos de hematoma ou acúmulo de líquido no total — e mostrou algo interessante: aparelhos que combinam dois tipos de laser, em vez de um só, entregam mais contração de pele e deixam as pacientes mais satisfeitas com o resultado final [6].

Por que eu escolho o laser durante a cirurgia

Essa é uma preferência que eu assumo, e é justo explicar de onde ela vem.

A primeira razão é prática: a fibra do laser é fininha e passa dentro da própria cânula de aspiração. Ou seja, o tratamento da pele acontece no mesmo momento da cirurgia, sem precisar de um corte extra, uma segunda anestesia ou uma segunda data. Isso importa principalmente em áreas mais difíceis de tratar, como a parte de cima do abdômen, as costas e a ginecomastia (aumento da mama no homem), onde cânulas maiores — como as usadas na radiofrequência — encontram mais resistência para passar [4].

A segunda razão tem a ver com o próprio tipo de luz usada nesse laser: ela é absorvida de forma preferencial pelo sangue, o que ajuda a coagular pequenos vasos durante a cirurgia e reduz o sangramento e os roxos no pós-operatório — um ganho direto para a recuperação, já demonstrado desde os primeiros estudos sobre a técnica [5].

A terceira razão é a possibilidade de combinar dois tipos de laser na mesma cirurgia — um mais indicado para a camada mais profunda de gordura, outro mais indicado para a derme, a camada mais próxima da pele —, o que a literatura mais recente associa a mais retração de pele e mais satisfação do que usar só um tipo isolado [6].

A quarta razão é mais prática do que parece: quando a gordura aspirada vai ser reaproveitada como enxerto, para o rosto ou para outras partes do corpo, a lipoaspiração a laser preserva células de gordura viáveis na parte do tecido que não foi diretamente irradiada — permitindo que a mesma cirurgia sirva para os dois objetivos, contorno corporal e doação de gordura.

Dito isso, preferência não é regra fixa. A radiofrequência tem uma base de evidência real e crescente, e existem situações em que ela é, sim, a ferramenta certa.

Radiofrequência: a alternativa que cresce na mesma velocidade

A lipoaspiração com radiofrequência (RFAL) — por trás de nomes comerciais como o BodyTite — usa uma cânula que funciona como um polo elétrico por dentro do corpo, em conjunto com um eletrodo que desliza por fora, sobre a pele. A corrente elétrica que passa entre os dois gera calor dentro do tecido, contraindo as fibras de colágeno de um jeito parecido com o laser, mas por um caminho físico diferente — calor gerado pela própria corrente elétrica, em vez de luz.

Uma revisão específica sobre o assunto descreve essa tecnologia como uma resposta real para um problema comum: pacientes com gordura em excesso e flacidez moderada, que antes só tinham duas opções — lipoaspiração simples, com resultado insuficiente, ou cirurgia com retirada de pele, com uma cicatriz maior do que o caso pedia [8]. Na revisão de 2025 já citada, a radiofrequência teve, inclusive, a média numérica mais alta de retração de pele entre as quatro tecnologias — ainda que, como vimos, a diferença para o laser não tenha, até hoje, comprovação estatística sólida [1].

A radiofrequência também exige respeito: o eletrodo por dentro do corpo esquenta um tecido que o cirurgião não vê diretamente, e já existem relatos de queimaduras profundas de pele quando o controle de temperatura falha [9]. Isso não torna a tecnologia perigosa quando bem indicada e bem executada — mas mostra que ela exige, assim como o laser, domínio técnico e um controle de temperatura em tempo real. Não é uma questão de um aparelho ser melhor que o outro por padrão; é uma questão de técnica de quem opera.

Quem responde bem e quem ainda precisa de cirurgia com retirada de pele

Responde bem à lipoaspiração com tecnologia associada: gordura localizada com flacidez leve a moderada e elasticidade de pele preservada; pacientes entre 25 e 55 anos, aproximadamente; áreas como braços, flancos, face interna das coxas, região submentoniana (embaixo do queixo) e abdômen sem diástase relevante dos músculos; quem quer evitar cicatriz de retirada de pele e aceita um resultado proporcional ao que a tecnologia realmente entrega.

Não responde bem, e precisa de avaliação cirúrgica com retirada de pele: excesso de pele que se pode segurar entre os dedos e afastar com folga do corpo; diástase importante dos músculos abdominais (quando os músculos do abdômen se afastam e abrem um espaço no meio), que nenhuma tecnologia de pele resolve; flacidez associada a múltiplas gestações ou grande perda de peso; pele com estrias extensas e perda relevante de elasticidade.

Nesses casos, prometer retração de pele com tecnologia é vender um resultado que a física não entrega. A energia — laser ou radiofrequência — contrai a pele numa margem que se pode medir, não a remove. Quando a indicação é de abdominoplastia ou braquioplastia (as cirurgias que retiram o excesso de pele do abdômen e dos braços), a tecnologia continua tendo um papel, mas como complemento à cirurgia de retirada de pele, não como substituta dela.

Dúvidas práticas

É um procedimento separado da lipoaspiração? Não. O laser é aplicado através da mesma cânula, no mesmo tempo cirúrgico, sob a mesma anestesia.

Quanto tempo leva para ver o resultado? Há uma retração inicial perceptível quando o inchaço cede, nas primeiras semanas. O resultado definitivo, sustentado pelo colágeno novo, amadurece entre três e seis meses — por isso os estudos avaliam o resultado nesse prazo, não antes.

Dói mais do que a lipoaspiração comum? A recuperação segue, em geral, o mesmo padrão da lipoaspiração convencional sob anestesia local: inchaço, roxos leves e uso de malha compressiva por algumas semanas.

Substitui a abdominoplastia ou a braquioplastia? Não quando há excesso real de pele a ser retirado. Substitui, com frequência, a indicação de cirurgia de retirada de pele em quem tem apenas flacidez leve a moderada.

Todo cirurgião que faz lipoaspiração usa essa tecnologia? Não. Exige equipamento específico e treinamento no parâmetro de energia e no controle de temperatura — é técnica médica, não um acessório que se liga à cânula sem curva de aprendizado.

Como a indicação é construída

A decisão não começa pela tecnologia. Começa pelo exame da pele, do volume de gordura e da musculatura por baixo, com a paciente em pé e sentada.

Se o que domina é gordura localizada com pele ainda elástica, a lipoaspiração isolada já resolve. Se há gordura associada a flacidez leve a moderada, a lipoaspiração com laser — ou, em casos específicos, com radiofrequência — entra como parte do mesmo tempo cirúrgico. Se há excesso real de pele ou diástase muscular, a resposta é cirúrgica, com retirada de pele, e a tecnologia de energia pode somar-se a ela, mas não a substitui.

Essa avaliação, feita antes de qualquer decisão sobre aparelho, é o que diferencia um resultado proporcional de uma promessa que a física do procedimento não cumpre.

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Referências

  1. Faustino LD, Cruciol FS, Motoki THC, Felix GAA. Comparative Efficacy of Adjuvant Technologies for Skin Tightening in Liposuction: A Systematic Review and Quantitative Analysis. Aesthetic Plast Surg. 2025 Oct 28. doi:10.1007/s00266-025-05334-5

  2. DiBernardo BE. Randomized, Blinded Split Abdomen Study Evaluating Skin Shrinkage and Skin Tightening in Laser-Assisted Liposuction Versus Liposuction Control. Aesthet Surg J. 2010;30(4):593-602. doi:10.1177/1090820X10380707

  3. Goldman A, Wollina U, de Mundstock EC. Evaluation of Tissue Tightening by the Subdermal Nd:YAG Laser-Assisted Liposuction Versus Liposuction Alone. J Cutan Aesthet Surg. 2011;4(2):122-128. doi:10.4103/0974-2077.85035

  4. Katz B, McBean J. Laser-assisted lipolysis: a report on complications. J Cosmet Laser Ther. 2008;10(4):231-233. doi:10.1080/14764170802524437

  5. Ichikawa K, Miyasaka M, Tanaka R, Tanino R, Mizukami K, Wakaki M. Histologic evaluation of the pulsed Nd:YAG laser for laser lipolysis. Lasers Surg Med. 2005;36(1):43-46. doi:10.1002/lsm.20118

  6. Manzano-Finol F, et al. Laser-Assisted Lipolysis: A Promising Alternative to Traditional Liposuction. Aesthetic Plast Surg. 2025. doi:10.1007/s00266-025-05056-8

  7. Shridharani SM, Broyles JM, Matarasso A. Liposuction devices: technology update. Med Devices (Auckl). 2014;7:241-251. doi:10.2147/MDER.S47322

  8. Theodorou SJ, Del Vecchio D, Chia CT. Soft Tissue Contraction in Body Contouring With Radiofrequency-Assisted Liposuction: A Treatment Gap Solution. Aesthet Surg J. 2018;38(suppl_2):S74-S83. doi:10.1093/asj/sjy037

  9. Araco A. A case report of deep skin burns following radiofrequency-assisted liposculpting technology of BodyTite. Dermatol Ther. 2020. doi:10.1111/dth.13683

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