No domingo, 18 de outubro, a internet falou de pouca coisa além do desfile da Victoria's Secret. Entre as estreias e as surpresas, uma imagem se repetiu em todas as conversas: Adriana Lima, aos 45 anos, voltando à passarela em sua 21ª participação no desfile. Ela esteve ao lado de outras mulheres que passaram dos 40 e continuam desfilando, como Alessandra Ambrosio, aos 45, Doutzen Kroes, aos 41, e Irina Shayk, aos 40.
Como cirurgiã plástica, recebo no consultório a pergunta que essa cena provoca: "Doutora, o que elas fazem para estar assim?" Eu entendo a pergunta. Mas a resposta honesta começa por um limite: eu não sei o que cada uma delas fez, e nenhum médico sério deveria afirmar isso olhando uma fotografia. O que posso fazer é explicar o que a ciência mostra sobre quem envelhece bem e o que significa gerenciar o envelhecimento do rosto ao longo das décadas.
O que a passarela mostra, e o que ela não mostra
A passarela mostra um instante: luz desenhada, maquiagem, figurino, movimento e uma equipe de profissionais por trás. Não mostra a genética, o histórico de exposição ao sol, as oscilações de peso, as horas de sono nem as decisões médicas tomadas em silêncio ao longo de vinte anos.
Esse último ponto é o que mais me interessa. Rostos que chegam bem aos 40 e aos 50 raramente são resultado de uma única decisão. São resultado de uma sequência de decisões pequenas, tomadas na hora certa, por alguém que entendeu como o próprio rosto envelhece. É isso que chamo de gerenciamento do envelhecimento, e é diferente de "fazer procedimentos".
Os hábitos que têm evidência
Antes de qualquer agulha, laser ou bisturi, existe um grupo de medidas com respaldo científico que muda a trajetória da pele.
Proteção solar diária. O estudo mais citado sobre o tema é um ensaio clínico randomizado australiano com 903 adultos com menos de 55 anos, acompanhados por 4,5 anos. O grupo que usou protetor solar de amplo espectro todos os dias não apresentou aumento detectável do envelhecimento cutâneo, e o envelhecimento foi 24% menor do que no grupo que usava o produto quando achava necessário (odds relativo 0,76; IC 95%, 0,59 a 0,98) [1]. A mensagem prática é simples: o que importa é a regularidade, não o produto mais caro.
Retinoides tópicos. Uma revisão sistemática de ensaios randomizados sobre tretinoína tópica no fotoenvelhecimento incluiu sete estudos e encontrou melhora consistente de rugas finas, manchas e textura, com resultados já no primeiro mês e mantidos por até 24 meses, com boa tolerância [2]. É um dos poucos tratamentos de uso doméstico com esse nível de respaldo.
Sono, álcool e peso estável. Aqui a evidência é menos uniforme e eu prefiro dizer isso claramente. Já escrevi aqui no blog sobre como dormir mal acelera o envelhecimento e sobre os impactos do álcool na pele. Sobre o peso, o que vejo no consultório é que oscilações grandes cobram um preço na sustentação do rosto, assunto que aprofundei no texto sobre o rosto após perda rápida de peso.
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O que o espelho não resolve: a estrutura por baixo da pele
Existe um limite para o que cuidados de pele conseguem fazer, e esse limite é anatômico. O rosto não envelhece apenas na superfície. O esqueleto facial sofre reabsorção óssea em áreas previsíveis: região média da face, bordas da órbita e a região ao lado do queixo. A perda de projeção óssea dá a impressão de descida dos tecidos, enquanto os ligamentos de retenção perdem firmeza e permitem que a pele e a gordura se desloquem [3,4].
Isso explica por que duas mulheres com a mesma rotina de skincare e a mesma idade podem ter rostos muito diferentes aos 45. Quando a causa é estrutural, nenhum creme muda a causa. Quem quiser entender essa anatomia em detalhe encontra o mapa completo em como o rosto envelhece dos 30 aos 70 e em reabsorção óssea facial.
Na minha prática, a pergunta que mais orienta o plano não é "qual procedimento você quer?", e sim "o que mudou no seu rosto nos últimos cinco anos, e o que você fez com o sol e com o peso nos últimos vinte?". A resposta quase sempre aponta qual camada está falando mais alto: pele, volume, sustentação ou osso.
Gerenciar é escolher o momento certo, e não fazer tudo de uma vez
O erro mais comum que observo é o de tratar o rosto aos 45 como se tivesse 65, ou aos 65 como se tivesse 45. Cada década pede uma pergunta diferente.
Na faixa dos 30, a prioridade é a prevenção: sol, retinoide, e conhecer o próprio rosto. Esse raciocínio está detalhado em prevenção estética. Aos 40, começa a ser útil avaliar a qualidade da pele, o volume e os primeiros sinais de perda de sustentação, e é a idade em que muitas pacientes me procuram com um olhar que descrevem como "cansado", sem que haja flacidez evidente. Aos 50 e além, a estrutura profunda passa a pesar mais, e a conversa pode incluir a cirurgia.
Quando a cirurgia é a indicação, o que defendo é a cirurgia por vídeo em plano profundo, que reposiciona os tecidos em vez de esticar a pele. Esse é o raciocínio por trás do lifting em plano profundo, e é também o que sustenta um resultado natural, sem o aspecto "esticado" que marcou os anos 80 e que expliquei no texto sobre a história da cirurgia da face.
E o processo não termina na sala de cirurgia: a manutenção é parte do planejamento, como mostro em manutenção após o lifting.
Perguntas que as pacientes me fazem depois de um desfile como esse
"Aos 40 eu já preciso de cirurgia?" Não existe idade que decida isso. O que decide é a anatomia, a queixa e o quanto os tecidos já descenderam. Muitas pacientes aos 40 precisam apenas de um plano de pele bem conduzido.
"Dá para ficar com aparência natural?" Dá, e esse é o objetivo central do meu trabalho. A naturalidade vem de respeitar a anatomia e a expressão de cada rosto, e não de copiar o rosto de outra pessoa.
"Devo me comparar com uma modelo?" Prefiro a comparação com você mesma: o seu rosto aos 35, e o que você quer preservar nele. Modelos são mulheres com genética, rotina e suporte profissional que raramente se reproduzem na vida real.
"Por onde eu começo?" Por três passos que cabem em qualquer rotina: protetor solar todos os dias, inclusive em dias nublados e dentro de casa perto de janelas; um retinoide prescrito para o seu tipo de pele, com acompanhamento; e uma avaliação médica do conjunto do rosto, para saber qual camada merece atenção primeiro. Essa ordem importa, porque evita gastar energia e dinheiro com o que não é a causa da mudança que você vê no espelho.
Há ainda um ponto que pouca gente comenta: envelhecer bem também depende de expectativa realista. As mulheres que mais ficam satisfeitas com o que fazem pelo rosto são as que chegam sabendo o que querem preservar, e não apenas o que querem apagar.
Se o desfile despertou em você a vontade de entender o que faz sentido para o seu rosto, essa conversa começa por uma consulta médica, com avaliação individual da pele, do volume, da sustentação e da estrutura óssea.
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Referências
Hughes MC, Williams GM, Baker P, Green AC. Sunscreen and prevention of skin aging: a randomized trial. Ann Intern Med. 2013;158(11):781-90. doi:10.7326/0003-4819-158-11-201306040-00002. PMID: 23732711
Sitohang IBS, Makes WI, Sandora N, Suryanegara J. Topical tretinoin for treating photoaging: a systematic review of randomized controlled trials. Int J Womens Dermatol. 2022;8(1):e003. doi:10.1097/JW9.0000000000000003. PMID: 35620028
Mendelson B, Wong CH. Changes in the facial skeleton with aging: implications and clinical applications in facial rejuvenation. Aesthetic Plast Surg. 2020;44(4):1151-8. doi:10.1007/s00266-020-01823-x. PMID: 32844267
Wong CH, Mendelson B. Newer understanding of specific anatomic targets in the aging face as applied to injectables: aging changes in the craniofacial skeleton and facial ligaments. Plast Reconstr Surg. 2015;136(5 Suppl):44S-48S. doi:10.1097/PRS.0000000000001752. PMID: 26441110
Dra. Ana Carolina Chociai, Cirurgiã Plástica, CRM-PR 27216, RQE 18855. Mestre em Cirurgia pela UFPR. Responsável técnica da Clínica Chociai, em Curitiba.