"Qual é o melhor lifting facial?" parte de uma ideia que não se sustenta: a de que existe uma técnica campeã, e que basta escolher o nome certo. Não basta. O mesmo nome esconde cirurgias muito diferentes, e o que decide o resultado é a camada do rosto que a operação alcança.

Lifting facial é o procedimento que reposiciona os tecidos do rosto que desceram com o tempo. Quando a flacidez está nos tecidos profundos, só um lifting trata essa causa. Outros tratamentos podem amenizar. Tratar, não.

O que cai quando o rosto cai

O rosto não envelhece só na pele. Ele tem camadas: pele, gordura, o SMAS (a camada de sustentação que fica entre a pele e os músculos da mímica), os ligamentos de retenção e o osso. Os ligamentos são as âncoras que prendem os tecidos moles ao esqueleto. Com os anos, eles afrouxam, e a gordura e o SMAS descem. É assim que se formam o sulco nasogeniano mais fundo (conhecido como bigode chinês), o jowl na linha da mandíbula e o contorno indefinido entre a face e o pescoço. Se quiser entender cada uma dessas peças, escrevi sobre o que é o SMAS e sobre os ligamentos de retenção.

Isso muda a pergunta. Se o problema é uma estrutura profunda que desceu, tratar a pele não o resolve. Laser, bioestimulador, radiofrequência e preenchimento têm seu lugar: melhoram a qualidade da pele, devolvem volume pontual, suavizam. Mas nenhum deles reposiciona o que está abaixo. Chamo isso de amenizar. É útil, e não é o mesmo que tratar.

Mesmo nome, cirurgias diferentes

"Doutora, eu quero só um mini." Ouço essa frase quase toda semana. Quem diz isso pede menos cirurgia, menos recuperação, menos risco, e é um pedido justo. Mas o nome da cirurgia não decide nada. Decide a camada em que o rosto desceu, e as técnicas mais comuns se separam justamente pela profundidade em que atuam.

  • Minilifting: descolamento mais superficial, com incisões menores. Entrega um resultado pequeno, com tensão na superfície, e não trata estruturas profundas.

  • Lifting de SMAS: reposiciona o SMAS, a camada de sustentação. Atua nessa camada, com liberação dos ligamentos menos ampla que a do deep plane.

  • Deep plane: atua abaixo do SMAS, com liberação dos ligamentos. Pele e SMAS sobem juntos, como uma unidade, sem tração na superfície.

  • Endo Deep Plane: atua abaixo do SMAS, por vídeo, com acesso pelo couro cabeludo. O vetor é vertical, e a extensão vai da sobrancelha ao pescoço, conforme o tipo de tratamento.

O minilifting é o ponto em que mais explico. Na minha concepção, ele nunca basta: atua na superfície, deixa o rosto com aspecto repuxado e o resultado é pequeno, porque não alcança o terço médio. Há um motivo anatômico para isso. O estudo em cadáveres citado abaixo descreve que técnicas sem liberação, como os fios e os liftings minimamente invasivos, tensionam o tecido e passam o peso do retalho para a fixação, o que limita a durabilidade. Por isso não o apresento como alternativa equivalente a um lifting profundo. Escrevi sobre as diferenças entre minilifting e lifting facial.

Por que o plano profundo sustenta mais

Puxar pele sobre uma estrutura que desceu tem dois defeitos. Dá o aspecto esticado, porque toda a tensão fica na superfície. E dura menos. Um estudo anatômico em 50 cabeças de cadáver mostrou o mecanismo: levantar o tecido sem liberar os ligamentos desfaz a orientação antigravitacional das fibras e faz o peso do retalho depender só da fixação. Liberar por completo permite reancorar o tecido em posição mais alta, preservando a arquitetura profunda, o que em teoria melhora a durabilidade (Minelli et al., 2024).

O plano profundo exige conhecimento anatômico e experiência de quem opera, porque trabalha perto das estruturas que sustentam a expressão do rosto. É mais um motivo para a técnica vir depois do diagnóstico, e não antes.

A sobrancelha é a primeira coisa que olho

Na consulta, a técnica não é a primeira decisão. O diagnóstico é. Examino o rosto por camadas, e olho primeiro para a posição da sobrancelha. Se há ptose do brow, a paciente já pode ser candidata ao lifting no vetor superior, o tipo 1: região frontal, superciliar e temporal. O olhar cansado muitas vezes nasce ali, e não na pálpebra.

A partir daí, o plano sobe de tipo conforme o exame mostra. No tipo 2, o terço médio entra: região malar, infra-orbitária e sulco nasolabial. No tipo 3, o tratamento chega ao terço inferior, com a parte inferior da face e a borda mandibular. No tipo 4, inclui o pescoço, com a região cervical, o submento e as estruturas profundas do pescoço. A extensão sai do exame físico, não de uma tabela, e cada plano é individualizado. Essa lógica aparece também na literatura: uma série de 393 pacientes usou cinco grupos, definidos pelo padrão de envelhecimento e pela necessidade anatômica (sobrancelha, terço médio, parte inferior da face e pescoço), para planejar a cirurgia de cada rosto (Firat, 2025).

Clique aqui e agende sua consulta

O que o ultrassom muda na decisão

Em toda consulta há análise 3D e ultrassom. O ultrassom mostra material aplicado anos antes, em camadas que o espelho e a palpação não alcançam, e isso muda o planejamento. Preenchimento acumulado empurra o rosto para baixo e disfarça a anatomia que preciso operar. Quando isso acontece, a cirurgia é parte do tratamento, e não uma contraindicação. Escrevi sobre o excesso de preenchimento e o que ele muda na operação.

Como eu faço: o vetor endoscópico

Nos liftings convencionais que faço, passei a adicionar o vetor endoscópico. O motivo é o sulco nasogeniano. O vetor vertical melhora bastante o aspecto dele, e a tração lateral do lifting convencional sozinha costuma chegar menos nessa região. As séries de deep plane transtemporal confirmam que a região nasogeniana está entre as que mais melhoram (Kul et al., 2025). Sobre esse tema, escrevi que o bigode chinês é queda dos tecidos, e não uma dobra para preencher.

Os dados específicos do deep plane endoscópico ainda são menos numerosos que os da técnica aberta, e por isso olho também para o conjunto da cirurgia em plano profundo.

Quando eu digo que não é o momento

Há pacientes que chegam pedindo uma cirurgia que o rosto delas não pede. Quando a flacidez de plano profundo é pequena e as queixas são mais superficiais, a cirurgia não entrega um grande resultado. Nesses casos, o enxerto de gordura e outros tratamentos minimamente invasivos fazem mais por elas.

Aprendi que dizer "esse não é o seu momento para um lifting" é tão parte do meu trabalho quanto operar. Operar quem não precisa é expor a paciente a risco sem benefício proporcional. E o contrário também vale: quem tem flacidez de tecidos profundos e recebe só tratamentos superficiais gasta tempo e dinheiro com resultados que não duram.

A pergunta certa

"Qual é o melhor lifting?" pede um nome. "Qual camada do meu rosto desceu, e qual cirurgia trata essa camada?" pede um diagnóstico. A segunda pergunta leva a um plano. A primeira leva a uma promessa.

A consulta dura de 60 a 90 minutos, comigo. Examino as camadas do seu rosto, com 3D e ultrassom, e digo com clareza o que precisa de cirurgia, o que se resolve sem ela e o que ainda não é o momento. Serve para quem já decidiu operar e para quem quer entender o rosto antes de decidir.

Clique aqui e agende sua consulta

Descubra mais

Referências

  1. Minelli L, Brown CP, van der Lei B, Mendelson B. Anatomy of the Facial Glideplanes, Deep Plane Spaces, and Ligaments: Implications for Surgical and Nonsurgical Lifting Procedures. Plast Reconstr Surg. 2024;154(1):95-110. doi:10.1097/PRS.0000000000011078 · PubMed

  2. Firat M. Endoscopic Deep Plane Facelift: A Classified Approach. Aesthet Surg J. 2025;45(10):989-1001. doi:10.1093/asj/sjaf110 · PubMed

  3. Kul Z, Eryilmaz E, Özer E. Transtemporal Endoscopic Deep Plane Face Lift. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2025;13(1):e6461. doi:10.1097/GOX.0000000000006461 · PubMed

Anterior
Anterior

Bigode chinês é queda dos tecidos, e não uma dobra para preencher

Próximo
Próximo

O que comer depois de uma cirurgia plástica da face: o que a ciência mostra sobre alimentação e cicatrização