Dia do Médico: a história da medicina no mundo e por que celebramos em 18 de outubro

Todo 18 de outubro, médicos de vários países recebem mensagens de agradecimento. Mas pouca gente sabe por que a data é essa e, principalmente, o tamanho da história que ela homenageia. Como médica e cirurgiã plástica, gosto de lembrar que o que faço hoje no centro cirúrgico é a ponta de uma cadeia de observação, erro, coragem e ciência que começou há milhares de anos.

Por que o Dia do Médico é comemorado em 18 de outubro?

A origem da data é cristã. Em 18 de outubro a Igreja Católica celebra São Lucas, autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos. A tradição o reconhece como médico, a partir da referência de São Paulo na carta aos Colossenses, que o chama de "Lucas, o médico amado". Desde a Idade Média, Lucas é considerado o padroeiro dos médicos.

No Brasil, relatos sobre a criação da data atribuem a iniciativa, no início do século XX, ao médico Eurico Branco Ribeiro, devoto de São Lucas. Portugal, Itália e Bélgica também homenageiam seus médicos nessa data. Outros países escolheram caminhos próprios: o Canadá, por exemplo, celebra os médicos em 1º de março, em homenagem a Emily Stowe, a primeira mulher a exercer a medicina no país.

Ou seja: a data nasceu da fé, mas hoje significa algo mais amplo. É um dia para reconhecer uma profissão construída sobre um compromisso antigo, o de cuidar de quem sofre.

As primeiras medicinas: Egito, Mesopotâmia, Índia e China

Muito antes de existir a palavra "médico", já havia quem tratasse doentes. No Egito antigo, Imhotep, que viveu por volta de 2600 a.C., é lembrado como um dos primeiros nomes associados à medicina. O papiro de Edwin Smith, cópia de um texto ainda mais antigo, descreve traumas e ferimentos com uma lógica surpreendentemente clínica: examinar, diagnosticar, indicar prognóstico, tratar.

Na Índia, o tratado atribuído a Sushruta, escrito há aproximadamente 2.500 anos, descreve dezenas de instrumentos cirúrgicos e técnicas de reconstrução com retalhos de pele. É por isso que muitos historiadores o chamam de "pai da cirurgia plástica". Como cirurgiã, não consigo ler isso sem emoção: a ideia de reconstruir tecido preservando a irrigação sanguínea, base de tudo o que fazemos hoje na face, já estava lá.

Na China, a medicina tradicional organizou ao longo dos séculos um sistema próprio de diagnóstico, farmacopeia e prevenção. E na Mesopotâmia, os registros em tábuas de argila já separavam o médico que prescrevia do que operava, com regras e punições para o erro.

Hipócrates e o nascimento da medicina baseada em observação

Hipócrates de Cós (cerca de 460 a 377 a.C.) é reconhecido como o pai da medicina moderna porque rompeu com a explicação mágica ou religiosa da doença. Para ele, a doença tinha causas naturais, e a tarefa do médico era observar sinais, raciocinar e ajudar o corpo a se recuperar. Boa parte da terminologia clínica que usamos hoje vem dessa tradição, assim como os fundamentos éticos da profissão: sigilo, respeito aos mestres e solidariedade entre colegas.

O Juramento de Hipócrates atravessou 25 séculos, foi reescrito e adaptado, e ainda hoje é a base simbólica da formatura em medicina. Séculos depois, em Roma, Asclepíades da Bitínia levou a medicina grega para a cidade, propôs uma visão quase molecular do corpo e defendeu um tratamento mais gentil do paciente. Já Galeno (129 a cerca de 216 d.C.), médico de gladiadores e de imperadores, dominou o pensamento médico ocidental por mais de mil anos, em parte porque suas ideias, embora muitas vezes erradas na anatomia, eram sistemáticas.

A medicina islâmica e medieval: preservar, testar e ensinar

Enquanto a Europa atravessava a Idade Média, médicos do mundo islâmico traduziram, comentaram e corrigiram a herança grega. Avicena, no século XI, escreveu o Cânone da Medicina, que serviu de manual nas universidades europeias por séculos. Surgiram também os primeiros hospitais organizados, com enfermarias separadas e ensino à beira do leito. É um lembrete importante de que a medicina nunca foi obra de uma só cultura: é uma conversa entre civilizações.

Renascimento e Revolução Científica: abrir o corpo para entender a vida

Em 1543, Andreas Vesalius publicou De humani corporis fabrica, baseado em dissecações feitas por ele mesmo, e corrigiu séculos de erros herdados de Galeno. Em 1628, William Harvey demonstrou a circulação do sangue. Em 1796, Edward Jenner testou a primeira vacina, contra a varíola, abrindo caminho para a prevenção como estratégia de saúde pública. Pela primeira vez, a medicina passou a depender de experimento e demonstração, e não apenas de autoridade.

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Século XIX: anestesia, higiene e a teoria dos germes

Se existe um século que mudou o que é operar, é o XIX. Em 1846, em Boston, a demonstração pública da anestesia com éter transformou a cirurgia: o paciente deixou de ser contido e passou a ser tratado, e o cirurgião ganhou tempo para trabalhar com precisão. Sem anestesia, nenhuma das cirurgias delicadas que fazemos hoje seria possível.

Em 1847, o obstetra húngaro Ignaz Semmelweis mostrou, com estatística, que lavar as mãos reduzia drasticamente a mortalidade por febre puerperal. Foi ridicularizado pelos colegas. Poucas décadas depois, Louis Pasteur e Robert Koch estabeleceram a teoria dos germes, e Joseph Lister aplicou a antissepsia à cirurgia. Esta é uma das histórias que mais me marcam: um dado correto, apresentado cedo demais, e a resistência de uma classe inteira. Lembro disso sempre que a ciência contraria o que "sempre se fez".

Século XX: antibióticos, imagem, transplantes e a cirurgia reconstrutora

O raio X, descoberto por Röntgen em 1895, deu à medicina a capacidade de enxergar dentro do corpo sem abri-lo. A penicilina, observada por Alexander Fleming em 1928 e transformada em medicamento nas décadas seguintes, inaugurou a era dos antibióticos. Vieram a insulina, a hemodiálise, a tomografia, a ressonância, os transplantes e a cirurgia minimamente invasiva.

A cirurgia plástica moderna nasceu, em grande parte, da necessidade: as feridas da Primeira Guerra Mundial levaram cirurgiões como Harold Gillies a reconstruir rostos de soldados mutilados. Dessa origem reconstrutora vieram os princípios que usamos até hoje, como respeitar a vascularização, preservar a função e buscar um resultado que pareça natural. Falei um pouco dessa trajetória na face em A história da cirurgia da face.

E a medicina no Brasil?

A medicina brasileira formal começou em 1808, com a criação das escolas de cirurgia na Bahia e no Rio de Janeiro, após a chegada da família real portuguesa. Desde então, o país formou gerações de médicos que enfrentaram epidemias, construíram a saúde pública e hoje produzem ciência reconhecida no exterior. Curiosamente, dois dos santos mais populares do país também eram médicos: contei a história deles em Cosme e Damião, os médicos gêmeos que viraram protetores das crianças no Brasil.

O que a história ensina a quem pratica medicina hoje

Tenho três convicções que a história só reforça. A primeira: a medicina avança quando alguém tem coragem de medir os próprios resultados, como fez Semmelweis. A segunda: toda técnica nova precisa conviver com a humildade de saber que ela também será superada. A terceira: por trás de cada avanço houve um paciente que confiou. Na minha prática, na cirurgia da face, isso se traduz em indicar com critério, explicar com clareza e acompanhar o resultado ao longo dos anos, não apenas no pós-operatório imediato.

No Dia do Médico, minha homenagem vai a quem veio antes, desde quem observou um ferimento num papiro até quem lavou as mãos antes de um parto, e a cada paciente que nos confia sua saúde. Se você quer conversar sobre sua avaliação, será um prazer receber você na clínica.

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Referências

  1. Yapijakis C. Hippocrates of Kos, the father of clinical medicine, and Asclepiades of Bithynia, the father of molecular medicine. Review. In Vivo. 2009;23(4):507-14. PMID: 19567383.

  2. Miranda C M, Navarrete T L. [Semmelweis and his outstanding contribution to medicine: washing hands saves lives]. Rev Chilena Infectol. 2008;25(1):54-7. PMID: 18273526.

  3. Otte A. Medical History in the Hellenic Journal of Nuclear Medicine. Hell J Nucl Med. 2017;20(1):2. PMID: 28426839.

  4. Origem do Dia do Médico e relação com São Lucas: O Liberal, "Qual é o Dia do Médico? Conheça a origem da data" (link); Pravaler, "Dia do Médico" (link).

  5. Bíblia, Carta aos Colossenses 4:14 ("Lucas, o médico amado").

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